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Entre lá e confira
abrax
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15.4.10
Haikais Animais - Ale Kalko & Fred Di Giacomo
Sim, mais uma quinta-feira. A busca incessante por ilustrações para rechear este bloguinho continua.
Os textos são meus. As ilustrações fofinhas da Ale Kalko.
A Ale veio de Curitiba pra colorir São Paulo com ilustrações, design, poesias e infográficos. É mais difícil você descobrir o que ela não faz, do que o que faz. Duvida? Olha o fickr da moça então, mané!
Veja também:
-Os animais no traço de Gabriel Gianordoli
-Já leu "O Evangelho segundo Louis Amstrong"?
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6.4.10
Jogo da Intuição - Quem vê cara, conhece a expressão.
O Jogo da Intuição foi a primeira fotonovela interativa desenvolvida pela Internet Núcleo Jovem. A ideia era fazer um newsgame mais simples que os anteriores, que ajudasse o internauta a entender os conceitos de microexpressão e intuição, destacados na matéria da revista impressa.
Pelo pouco tempo que tínhamos, resolvemos fazer algo com poucos fases. O resultado gráfico foi um dos melhores que obtivemos.
Edição: Alexandre Versignassi, Fred Di Giacomo, Kleyson Barbosa
Edição de Arte: Fabiane Zambon, Jorge Oliveira
Desenvolvimento: Tadeu Correa
Fotografia: Dulla
Produção: Juliana Hirschmann
Linkpro jogo: http://super.abril.com.br/multimidia/info_536279.shtml
-Mais newsgames
-Meu blog sério sobre jornalismo
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15.3.10
Mulheres II: Quando acordam
-Todos os contos
Este conto é um trecho do livro "Memórias de um Perdedor", em breve nos melhores botecos.
Quando acorda, olhinhos fechados, Nathália tem cara de azul, gosto de esperança, cheiro de paz. Me lembra incenso queimando. Viajo longe... Fico olhando seu rosto, tentando ler uma história, mas sua pele macia não tem rugas e nem verbos. Só farejo vestígios de uma boa notícia, meu instinto jornalístico é mais forte que minhas desilusões com a profissão. Ela bate o despertador e volta pro sono. Murmura, cansada, quase pedindo:
_ São seis ainda, vou dormir mais meia horinha...
Tudo bem, meu anjo, durma quanto quiser, enquanto isso, peço pra dEUS(se eLE existir), que estique essa meia hora em um dia, pra que essa menina possa descansar de todo uma vida, pelo menos dessa vez.
Seus cabelos são lisos, negros, olhos puxadinhos, boca carnuda, parece índia. Só um ano mais velha, mas toda uma vida na minha frente. ELA: trabalha desde os dezesseis. EU: me desfaço em lágrimas e borro as calças por um estágio de duzentos reais ao mês. Se mantém na cidade com nove horas diárias de trampo numa empresa de suco em pó. Embalam de tudo por lá: suco, sonhos, lágrimas e suor dos operários, desidratam, tiram toda água e humanidade e depois deixam os funcionários voltarem sentindo um buraco em seus corpos. Nem passa em casa, vai pra aula, vender seus sonhos em troca de “comunicação social com habilitação em jornalismo”. Fala comigo e o tempo para. Meiga, quase uma menina, com histórias que deixariam todas minhas noivas neuróticas a ponto do suicídio. Gosto de ouvi-la. Quando chega em casa vira suco.
_Eu falo demais, né?
Não, linda, adoro te ouvir, você me fez voltar a escrever depois da síndrome de pânico, da hipocondria e do coração partido. Parece que eu não escolho mulheres ou pretendentes, mas boas histórias. E você é cheia de boas histórias, me conte uma, vai:
_ Tinha uma indiazinha que morava na quebrada de São Paulo, Freguesia do Ó .
_Como chamava essa indiazinha?
_Hum... Chamava Iracema!
_A virgem dos lábios de mel?
_Não, nada mais de virgem, os pais não gostavam da ideia, mas ela transou com um namorado legal, até, aos dezessete anos...
_E o que fazia essa indiazinha? Caçava, pescava? Fazia artesanato?
_ Não, artesanato é coisa de hippie. Trabalhava e estudava!
_ Hum... Que mais?
_ Bom, um dia, cacique bateu na sua esposa e a indiazinha partiu pra cima dele
_Jura?
_ Sim, dizem que era de uma tribo de amazonas guerreiras.
_Certo, certo,que mais?
_ Bom, deixa eu ver, o irmão da indiazinha, resolveu virar mulher...
_ E aí?
_Aí, o cacique o expulsou da aldeia, mas sua mulher não deixou. O cacique saiu de casa, e sua mulher cortou os pulsos.
_ (...*) É um mundo horrível, não é?(...) Vem, dá um abraço!
O mundo é horrível e ela me abraça, enroscada no meu corpo, mas quem precisa daquilo sou eu. Naquele emaranhado o (quase) homem de um metro e oitenta é, na verdade, embalado pela menina-mulher de um e sessenta e quatro. Ela aninha a cabeça no meu peito e sua respiração na minha pele faz um bem danado.
_É, a tribo só se reuniu quando Iracema foi estudar fora. Aí, um dia, um homem mau a parou na rua. Ele tinha nos olhos toda a cólera dos novos tempos. Toda raiva sem sentido que as pessoas frustradas carregam. Assaltou-a e tentou violentá-la. Falou e fez coisas horríveis. Ela nunca pôde falar pro cacique ou pra mãe.
_ (...*)(...*)Os homens são uns animais, né? Deviam ser todos castrados... (...*) Ela não ficou com trauma de sexo?
_ De sexo não, mas ficou com medo de sair de casa por um ano...
_ E aí?
_Aí, ela encontrou um louco que pensava que era príncipe, um bufão. E ele animou sua vida, enquanto as cicatrizes fechavam.
Sou um palhaço triste, já escrevi e repito, agora, você me tirou dessa. Obrigado. Olho pra sua cara, seis e meia da manhã. O primeiro ônibus passa sete e vinte e leva até o centro. O segundo você pega quinze pras oito. Volta direto pra aula às sete da noite. Amanhã, vou pensar que sou uma franga com medo da vida e você é forte como ferro. Mas agora, só olho pra você, abraço seu corpo, e peço que dEUS transforme sua meia hora de sono num dia inteiro.
*(...) = Silêncio da vida real.
*** -Leia também "Mulheres I: Anjas Tortas"
Foto: Eloisa G
Quando acorda, Ana tem cara de vermelho. Faz barulho, um barulho estranho, meio perdida. Quando volta ao nosso planeta, é toda um sorriso bonito, gosto de curiosidade, cheiro de auto-estima, parece criança feliz, descobrindo o mundo com uns olhões arregalados. Nunca transamos, mas adoro acordar com ela ao meu lado. Sentir seu corpo inteiro junto ao meu, todo branco, cheio de pontas vermelhas. Ela beija minha boca com gosto, diz que é boa porque babada.
Ana gosta de meninas e gosta um pouco de mim. Já gostou mais, mas ainda somos amigos. Nunca cheguei nem perto da sua virgindade. Ela só dorme com mulheres, diz que casa virgem. Pelo menos, de homens. Beijo cada dedo do seu pé e ela fica louca, se contorce. Depois pratica com a namorada, diz que a iniciei nos “prazeres do pé”.
Completa em sua ingenuidade.
Às vezes, ficamos horas na cama, nus, beijando corpos, átomos, células e futuros cadáveres. Todo mundo é um necrófilo por antecipação.
Um dia beijou o professor de literatura, agora têm um caso. “E a gente, Ana, o que nós temos??”
Não sei se te amo, se vou te amar ou se te amei. Sei que gosto muito de ficar com você. Um abraço seu cura minha carência, meu medo da vida, meu medo da morte. Nos teus braços, sou imortal por um instante. No teu abraço, uma eternidade supérflua.
Ela ainda fica comigo, porque sou o único que não me apaixono por seus cabelos cor de fogo. Todos, homens e mulheres estão aos seus pés. Eu também estaria se não fosse cego e louco. Um perdido na vida, não faço por mal. Ela sabe disso e se diverte. Deixa que eu beije seu piercing no mamilo, puxo com os dentes, coloco a mão no meio da suas pernas. O telefone toca. Uma “EX”. Primeiro minha, e depois a dela.
A minha quando acorda é verde, tem cheiro de braveza, mas gosto de desafio. Sonhei que um dia as duas se beijavam. Não importa, a Ana sai voando pela sala e volta no dia seguinte, até que eu enjoe das preliminares e ela enjoe de barba. Então cada um de nós vai procurar dormir com uma mulher diferente. E a história acaba assim.
***
Quando acordo sozinho a vida parece cinza, tem gosto de vazio e cheiro de solidão. Abraço forte o travesseiro e fico acordando com falta de ar. Sozinho, de cueca, o mesmo pesadelo de sempre, sinto como se fosse morrer e me cago de medo. Sou mais um perdido numa noite suja. Só. As mulheres com seus sorrisos preenchem meu eu. Sou viciado em seus hormônios e, sem seus encantos, só brEU.
Só.
EU
“De perto nem os anjos têm asas.”
Leia também:
-Milagre na Rua Augusta
-Sim, eu já tentei matar o Paulo Coelho
-Amor em tempos de Aids
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11.10.09
Direita, esquerda. Volver!
O radical de extrema esquerda grita pra mim
Como é boa a sábia ditadura de Ho Chi Min
O fanático de direita vai mostrar pra você
"Quantos mortos valem as virtudes de Pinochet?"
Enquanto isso segue o povão, besta como sempre
Chibata no lombo, pastando contente
-Mais poesias
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29.8.09
Sou contra o sistema
Mais valem estrelas no céu
Que no cinema
-Outras poesitas mas
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17.8.09
De como me tornei serviçal de um vampiro em tempos de Gripe Suína - parte 3
-Saiba como essa zona começou. Leia a primeira parte desse conto
-Na segunda parte do conto, nosso amigo descobre o vampiro Dusseldorf.jpg)
Ilustração: Sabrina Barrios<
Depois do meu primeiro “expediente”, fui até minha casa e levei tudo que tinha pra morada do meu novo “patrão”. Comprei no camelô um óculos escuro invocado, tipo Ray-Ban, e descolei uma arma que o Gusmão arranjou mesmo sem documentação em nome da nossa “velha amizade”. Falei pra mamãe que agora era segurança e talvez ficasse sem dar notícias por algum tempo. A Katiúscia estranhou que contratassem alguém tão magro como eu para ser segurança. Minha vida sexual continuava nula, mas eu estava curtindo essa “nova fase”. Pena que não pudesse abrir o bico com ninguém, com o risco de que o velho arrancasse minha cabeça. Dusseldorf era seu nome. Demorei um bocado pra conseguir pronunciar. Ele me explicou que tinha aquele sotaque estranho porque era alemão. Tinha sido “convertido” no começo do século XX, o que para um vampiro era pouco tempo. Mudara para o Brasil depois da Segunda Guerra Mundial(período no qual virou uma espécie de hiena carniceira, só se alimentando dos mortos em combate). Logo se estabeleceu em São Paulo, no bairro de Pinheiros, que segundo ele é o mais antigo da cidade. Parece que tribos indígenas eram aglomeradas ali, pelos jesuítas, em volta da igreja do Largo de Pinheiros. Mas isso muito antes dele chegar aqui, lá pelo século XVI. Eu gostava do vampirão porque ele era inteligente e me ensinava uma porrada de coisas, mas não confiava em mim e queria me testar antes de me dar umas gotinhas do seu super-sangue.
_Saco de ossos!
_Sim, Dusseldorf.
_Você pode me chamar de mestre Dusseldorf? É assim que os lacaios tratam seus amos.
_Cara, a Lacraia era de uma cidade perto da minha, sabia? Ela nasceu em Promissão.
_Eu disse lacaio, seu energúmeno.
_Ah, desculpe...
_Enfim, saco de ossos, vou precisar de sua ajuda.
_Tá, o que você quer?
_Dois porcos frescos para eu sugar seu sangue.
_Putz, e as vagabas do “Jackson’s Girls”?
_ Vagabas? Que linguajar chulo, saco de ossos. Eu deveria drená-lo agora mesmo e deixar sua carne barata para Cérbero.
_Foi mal, foi mal... Mestre.
_Duas garotas do “Jackson’s Girls” estão com suspeita de Gripe Suína. Ele preferiu fechar a casa.
_ Puta epidemia louca, né?
_ É bem melhor do que a Espanhola, e eu sobrevivi a ela mesmo já tendo uma certa idade...
_Com quantos anos você, você... Se converteu, passou dessa pra melhor, começou a curtir mais pescoços do que mulheres, sei lá.
_ Cinquenta! Mas chega de suas imbecilidades! Arrume as carcaças de porco frescas para que eu ainda possa sugar seu sangue quente. Rápido!
***
Puta merda, como eu ia arranjar uma carcaça de porco fresca? Era mais fácil arrumar um porco vivo. Será que os vampiros vegetarianos não matavam nem animais? Eu, hein, puta boiolagem. Aliás, eu tinha quase 70% de certeza de que o Dusseldorf dava marcha ré no quibe cru. Ele passava o dia ouvindo uns compositores clássicos “barulhentos” como um tal de Arnold Schoenberg e também o Wagner. Eu tomei uma coça uma vez porque disse que o Schoenberg era pior que rock ‘n’ roll. Ele odiava rock ‘n’ roll, dizia que a música tinha morrido com “os ritmos primitivos do jazz”. Rap e funk para ele não mereciam nem ser discutidos. De samba ele gostava, por ser uma “autêntica forma de expressão tribal”. Inclusive, ele tinha uma amigona que adorava samba e tinha um terreiro. Era a Mãe Dirce, que vendia umas ervas na carrocinha lá no Largo. Eu tinha medo dela e não curtia muito quando ela ficava fumando o charutão e trocando uma ideia com o Dusseldorf. Pra ele não fazia diferença, né? Ele não respirava mesmo, a fumaceira do charuto nem dava nada. Segui com meus óculos escuros em direção à Avenida Rebouças. Eu ia ficar de tocaia em frente ao açougue esperando os caras trazerem as carnes. O caminhão passava cedinho, no começo do dia. Pedi um conhaque pro dono do bar e esperei.
Foram uns três conhaques até ela aparecer. Não sei se era emo, gótica ou punk. Era uma dessas branquelas que curtem trepar com defunto em cemitério. Mas era linda. Cabelo azul, bocona carnuda pintada de preto, sombra no olho, peitão apertado num tomara que caia, micro saia mostrando as coxonas brancas e cortunão com salto. Fiquei duro na hora. Pensei: “Putz, magrelo, não vai esquecer os porcos do sanguessuga”, mas aí, a minha seca falou mais alto. Meses sem dar uma trepada. Conhacão na cabeça. Sabe como é? Foda-se.
_E ai, gatinha, ta bebendo o que?
_Rabo de galo, to sem grana.
_Oh, irmão, pega pra gatinha o que ela quiser.
_Tem vinho ai? _ ela falou com seu jeito blasé.
_Vinho pra gatinha, irmão.
_ Você usa sempre óculos escuros de noite?
_Eu uso, e você usa sempre batom preto?
_Sim.
_Hum... Você é emo?
_Posso quebrar essa garrafa na sua cabeça?
_OK, hum, você gosta de vampiros?
_Você não tem cara de ser jogador de RPG...
_RPG?
_Esquece...
_Hum, bom... E se eu dissesse que conheço um vampiro?
_Hum, bom... Eu diria que você é louco.
_Bom, ele se chama Dusseldorf e vai me dar um pouco do seu sangue vampiresco pra eu beber, se eu levar dois porcos frescos pra ele.
_Dusseldorf? Como no filme? Gostei da sua criatividade... Seus óculos são Ray-Ban?
_ É, são... Porque você não toma mais um vinho, me ajuda a pegar duas carcaças de porco e depois vai comigo pra casa do “mestre” pra ouvirmos um Schoenberg?
_Carcaça de porco, vinho e expressionismo alemão? Cara, você é uma das figuras mais engraçadas que eu já conheci... Só espero que esse teu mestre do RPG ai não queira me sacrificar em algum ritual maluco.
“Quem vai te devorar, gostosa, sou eu”.
***
Tive que pagar quase uma garrafa de vinho pra emo gostosa resolver ir comigo atrás das carcaças frescas dos porquinhos do governador José Serra gripado. Sabe? Eu sempre me sinto vivo quando estou bêbado. É o único momento em que eu realmente acredito que as coisas vão dar certo. Nem gripe, nem vampiro, nem Aids, nem fome, nem bala, nem político ladrão, vão me derrubar. To me sentindo corajoso pacas. E hoje essa branquinha do cabelo azul vai sentir meu foguete aterrissando no meio das pernas dela. Pode crer, olha lá os malucos deixando as carnes no açougue. Porra, tudo que eu queria era poder pegar os porcos sem ninguém perceber, mas não vai ter jeito. O açougue vai abrir já-já.
_Passa os porcos pra mim!
_Abaixa a arma rapaz!
_Abaixo o caralho! Vou levar duas carcaças de porco agora. Deixa eu ver se ta fresco.
Dei uma mordidona no porcão e a emozinha começou a vomitar e gritar que “aquilo era nojentoe ela ia correndo pra casa”. A vadia nem me avisou que um dos caras do matadouro estava chegando atrás de mim com um pedação de carne e deu com tudo na minha cabeça. Foda-se.
Na real, foda-me.
***
Na cadeia as coisas até que estão sussa. Ninguém quer chegar perto de mim porque acham que eu sou louco. Digo que meu mestre vampiro vai aparecer a qualquer hora pra me salvar, mas a verdade é que às vezes acho que ele inventou toda essa história só pra se livrar de mim.
-Leia outros contos
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10.8.09
De como me tornei serviçal de um vampiro em tempos de Gripe Suína - parte 2
- Leia a primeira parte desse conto esquizofrênico
Putz, to com um pelo encravado na bunda que ta chato. Olha só, o velhote deixou a porta aberta. Há, há, há, que otário. Uma coçadinha na cabeça. Que eu vou fazer primeiro? Ah, pode crer, ver o que tem na geladeira.
Nossa, mas essa casa parece um museu. Vários quadros antigos, mobília de madeira, isso deve ser muito das antigas. Pô, e deve valer uma nota. Deixa eu sentar aqui nessa cadeirona. Pô, foda. E uns livros em várias línguas. Muito louca a sala. Onde será que é a cozinha? Quadro, quadro, quadro, espada. Espada?! Caraca! Essa eu vou levar pra casa. Igual daquele filme “Coração Valente”. Ah, e olha a sala de TV! TV de plasma. Mano, eu vou conversar com os caras do movimento pra roubar esse tiozinho. Não, eu não vou roubar nada, mas sei lá, fazer uma preza com os caras, às vezes eu descolo um troco nessas. Ah, e tchan tchan tchan tchan: a geladeira está aqui. Mano, tomara que o cara tenha bacon. Tô na instiga pra comer um pouquinho.
_Mas que porra é essa?! Só tem carne e suco de tomate na casa desse velho?
Putz, alguém mexeu na porta, acho que vou...
_Se esconder? Não dá mais tempo, amigo...
-Caraca, como você chegou aqui? Larga o meu pescoço, velho maldito, eu só estava olhando, não ia roubar nada, eu juro.
-Ah, é? E o que você estava fazendo na frente da minha geladeira? Calma, Cérbero, pare de latir.
-Meu, deixa esse cachorro longe de mim, pelo amor de Deus. Se esse bicho me morde ele arranca uma perna.
-Você deveria temer mais o que eu posso fazer do que as mordidas de Cérbero.
_Ah, é? Que você vai fazer? Comer minha bunda?
Naquela hora, não sei como, mas o velho me jogou longe. Me arrebentei todo no chão e ele foi metendo bicas em mim, com aquele cachorro gigante latindo, me derrubando escada abaixo rumo ao porão. O lugar tinha um cheiro esquisito, mistura de açougue com mofo, umas teias de aranhas escrotonas e parecia que não era limpo há um bom tempo. Tentei me levantar, cuspindo sangue, mas meu corpo se paralisou quando vi em minha volta um monte de corpos pendurados em ganchos. Não sei se eram homens, ou bichos, talvez os porquinhos do governador José Serra. Travei. Cocei a carequinha pra lembrar o que ia fazer, mas o velho e o cachorro não me deram folga. Num salto ele estava em cima de mim, eu com as costas no chão, ele com os joelhos no meu ombro. “Me fudi”, pensei, “esse velho veado vai me currar e depois pendurar num desses ganchos”. Mas comecei a sacar a fria que eu tinha me metido de verdade, quando olhei pra cara dele. Não era humano. Era bestial. Presas afiadas escapavam de seus caninos, seus olhos estavam vermelhos, injetados de sangue, seu hálito exalava morte, suas mãos eram garras de um predador pronto para matar.
_ Satanás _ gritei tentando fazer uma cruz com os dedos das mãos _ que demônio é você?! Um vampiro.
_Ha, há, há, seu mortal imbecil, só agora você percebeu aonde se meteu? Confesso que esse seu porte físico de esqueleto nunca me atraiu, mas agora que você mexeu na minha geladeira e descobriu meu segredo, não vou ter alternativa...
_CARACA, seu Drácula! Me dá um autógrafo, pelamordedeus! Esse é meu último pedido.
-Imbecil, pra que você precisaria de um autógrafo se vai morrer?
_Sei lá, eu ia chegar no céu com moral. Tipo, “saca só São Pedro, tenho um autógrafo do conde Drácula”.
_Tolo, a morte não é como imagina sua religião. E eu não sou Drácula. Sou um vampiro menor, atolado nessa decadência brasileira.
_Pô, eu sempre gostei de vampiros. E na verdade eu não tenho religião não, mano. Digo... Senhor vampiro. Pô, ser morto por um vampiro vai ser style, mas você não precisa de um ajudante, não? Nos filmes de terror tem sempre um cara feio que fica tomando conta do caixão durante o dia. Feio eu já sou, só falta...
_Um servo? Sim, talvez um servo fosse útil para mim. Você seria meu carniçal, eu poderia te dar algumas gotas do meu sangue, pra você experimentar um aperitivo do meu poder imortal. Mas não sei, você é tão sujo e asqueroso.
Confesso que ser chamado de sujo e asqueroso por um vampiro não era a coisa mais irada que poderia me acontecer. Na verdade era um lixo, mas minha auto-estima era que nem o clima no Pólo Sul, nunca saía dos valores negativos. E nesse momento o velhote sanguessuga já não estava mais andando sobre mim e sim, dando voltas pelo porão, observado pelo fiel Cérbero.
_ Olhe, magricela, eu realmente preciso de um ajudante. Mas vou ter que testá-lo. E, entenda, sua vida humana terá acabado se você se juntar a mim. Você estará vendendo sua alma a Lúcifer por um preço barato.
_Doutor, minha alma não vale muito mesmo. E eu sempre quis que alguma coisa legal acontecesse na minha vida. Isso é a coisa mais empolgante que podia me acontecer, saca? Trabalhar pra um vampiro! Eu sempre soube que ia ser alguma coisa na vida e, como eu já disse, eu não curto religiões e sempre me amarrei em vampiros. Tá, eu não gosto muito de sangue, mas quando você for sugar alguma donzela virgem eu posso olhar pro lado.
_Donzelas virgens não são tão fáceis de encontrar hoje em dia...
_Por isso que você ta sempre acompanhado das minas do “Jacksons’s Girls”, né? Tô, ligado, eu sempre vejo o movimento das primas aqui na sua casa.
_Eu pago bem para sugar o sangue delas.
_E você não as mata depois?
_Não, eu sou quase vegetariano. Está vendo essas carcaças aqui? São porcos...
_E você não tem medo da tal gripe suína?
_Imbecil! Vampiros não tem sistema respiratório, vampiros não pegam gripe. Vampiros estão mortos. E a gripe suína não é transmitida por porcos, seu idiota!
_Putz, é mesmo, que vacilo. Bom, mas acho melhor a gente acabar com essa discussão que daqui a pouco vai amanhecer. Vai pro seu caixão que eu fico de guarda aqui.
_Você acha que eu confiaria tão inocentemente, num humano desprezível que veio saquear minha casa.
_Pô, cara, se não confia, então, me hipnotiza, me suga, me sodomiza. Sei lá, o que vocês vampiros velhos gostam de fazer. Eu já disse, estou disposto a vender minha alma, bem baratinho pra você, em troca de um trabalho, um lugar pra dormir e umas gotinhas desse seu suco de sangue mágico. É tipo Viagra isso? Tipo maconha, tipo o quê?
_Meu caro, isso lhe fará ter as mulheres mais belas e mesmo que você quisesse as mais horríveis elas pareceriam as mais belas pra você.
_Pô, mas isso é tipo cachaça, então...
_Chega de imbecilidades. Sua alma não terá salvação. Que geração perdida. Goethe nunca teria escrito “Fausto” se conhecesse você.
_Fausto Silva?
_Esqueça, imbecil. Você começa a trabalhar hoje. Um ser tão tosco só poder ser um servo obediente e fiel.
Continua..
-Pô, conto legal, quero ler mais!
-Me amarro em "True Blood" e outras histórias de vampiro
-Prefiro ler coisas curtas
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3.8.09
De como me tornei serviçal de um vampiro em tempos de Gripe Suína - Parte 1
-Sim, eu já fiz um conto sacaneando o Paulo Coelho

Era uma descida longa até minha casa. Ficava no largo, depois das obras do Metrô. Um sobrado. Eu morava em cima, embaixo tinha uma loja de armas e munições, na frente um cabeleireiro e uma loja de pesca. Tinha uma doença nova na cidade, uma gripe. "Gripe Suína" chamaram, parece que o governador José Serra disse que você só pegava de porquinhos. A gente não podia “passar a mão nos porquinhos, nem beijar os porquinhos”. Ok, governador José Serra, o Dumba nunca beijou um porquinho e agora estava na fila do hospital municipal de Diadema, com caganeira, dores no peito e febre alta.
Esses políticos são uns imbecis mesmo, não sei por que tem gente que ainda vota. Meu título de eleitor é lá de Luziânia a cidade onde eu nasci. Não conhece? Foda-se. Ninguém conhece aquela porra, só meu pai, um inútil total, que achou que íamos ter uma vida melhor lá. Achou, né? Ele é que encontrou uma vida melhor lá: uma amazonense bunduda, que tinha uma peixaria. Tiveram um caso por 3 anos até mamãe colocar ele pra fora. Ele foi. E nunca mais voltou se mandou pra Amazonas e pau na minha bunda magra. Tive que ficar com minha mãe e minha irmã, Katiúscia. Mas não quero que você tenha pena de mim, ok? Essa história não é pior que as outras. Tem gente que nasce com HIV e dá entrevista rindo na tv. Tem família inteira chacinada e o filho sobrevivente vira ativista de ONG. Eu não virei ativista, nem apareci na tv. Por enquanto. Mas eu era o melhor aluno do colégio estadual "Paulo Maluf", gostava de português e história. Acho bonito quem fala o português direitinho, sem muita gíria, tipo o professor Pasquale lá.
***
_Fala, Magrão, firmeza?
Sou magro. Tenho 1,79 de altura e peso 60kg. Sempre fui assim. Gosto de comer, mas às vezes não dá tempo. Gosto de trabalhar mais ou menos. É bom ter grana pra gastar, é ruim ficar perdendo tempo com trampo. Jogo na Mega-Sena. Trocaria uns dois anos de vida por uns 200.000 reais, fácil. Viver sem ter dinheiro ou ter dinheiro e viver pouco? Prefiro a segunda opção. Mas não tenho a mínima vocação pra bandido, trambiqueiro ou coisa que o valha. Não gosto de sangue.
Chego no sobrado. Ta garoando em São Paulo. Não é novidade. Terra da garoa é poético só pra quem está dentro do carro ou debaixo do guarda-chuva. Podia ter nascido carioca.
-Boa noite, Gusmão
-Boa noite, Fino.
-Vendeu muita arma, hoje?
-Vendi nada, depois dessa lei de desarmamento ta foda, né? Quase ninguém mais tem porte, aí nego prefere comprar no paralelo.
-Pode crer, fora que é mais barato, né?
-Total. Cidadão que quer se defender tem que desembolsar uma pusta fábula.
-Pode crer, vou subir. Boa noite, Gusmão.
-Boa noite, Fininho.
Fininho o escambau! Deixa ele ver meu fininho aqui. Ninguém me chama pelo nome. Mas pelo menos não me chamam mais de Cazuza igual na escola. Os caras ficavam me tirando de aidético e eu, magrelo, tinha que ouvir pra não apanhar. Bando de vacilão. Bom, chegar em casa agora ligar a TV e fazer um rango. To com vontade de ovo frito molinho com arroz. Pô, podia ter um bacon pra fazer que nem café da manhã gringo. Cê ta vendo? Eu não quero muita coisa. Um pouco de bacon já ia me deixar felizão. Coço a careca enquanto penso no que fazer. É gostoso. Às vezes esqueço o que estava fazendo e dou uma coçadinha na careca pra lembrar. Um “agradinho pro cérebro”. É engraçado? Eu sou um cara engraçado. É esquisito? Tá, eu também sou um cara esquisito.
Massa, ta passando filme de vampiro na televisão. Eu curto pra caralho vampiro. Pô, deve ser louco só comer sangue, as minas pagando pau, viver vários anos. E olha só os vampiros: Brad Pitt e Tom Cruise. Será que eu ia ficar parecendo o Brad Pitt se fosse vampiro? Um Brad Pitt com dois dentões. Pô, aí eu saía da seca. Faz uns seis meses que não dou uma. Acho que desde a Tat Boca de Caçapa. Há, que boquinha! Melhor boquete da Zona Sul. O Dumba que me apresentou. Chupou ele também. Aliás, chupou a galera toda. Foda-se. Será que eu ligo pro Dumba? Coitado, com a gripe do porquinho... Será que ele ta se cagando na fila? Nossa, mó vergonha deve ser. Eu colocava uma fralda, eu acho. Mas não ia caber, né? Sei lá, esse ovo ta cheiroso. Vou rangar e depois fumar um Hollywood na janela.
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Ilustração: Sabrina Barrios
Eu curto essa vista, saca? O largo vazio de noite. De dentro de casa até que a garoa é bonitinha. Estrela não dá pra ver aqui. Mas, também, já vi bastante em Luziânia e estrela é tudo igual, parece uma árvore de natal gigante. Eu gosto de Natal. Mas não por causa do Jesus. Por causa das propagandas da Coca-Cola, saca? Dos ursinhos brancos, que tinha, lembra? Porra, era mó legal. O clima do natal é massa, né? As lojas ficam abertas até tarde, tem comida boa, mas de Jesus eu não gosto muito. Esse lance de religião é um saco, ta ligado? Minha mãe é crente. Putz, ela não queria que a gente trepasse, que eu fumasse, que bebesse. Nossa, mano, um pé no saco. Minha irmã é meio crente também, mas ela pega uns caras. Tô ligado. Assim, não que ela seja safadona, saca? Estilo cachorrona, Mulher Melancia, essas porras. Ela é sussa até, mas namora uns caras ai. Bom, eu acho religião meio que coisa de ignorante. O professor de história descia a lenha em religião, inquisição, alcorão, essas coisas. Ele era um cara inteligente, saca? Tipo filósofo, barbudo, óculos. Pô, eu curtia. E tive um amigo também. O Igor. Mano, aquele cara era do mal, do mal. Tipo vampirão, pele pálida, só falava de capeta, bíblia negra, fez pacto de São Cipriano, mó sacrilégio. E o cara era cabeça, hein? Putz, lia altos livros, “Os Divina Comédias”, “Diário de um Mago”, “Brumas de Avalon”, o cara era foda. Por isso que eu já fico esperto com esse lance de religião.
Olha ai, o vizinho estranhão saindo de casa. Coroa bizarro, não fala com ninguém. Sai pra dar rolê com o rotweiller de noite, recebe umas putas na madruga, que eu to ligado, mas não cumprimenta ninguém, quase não sai. E tem grana. Pô, e o mané não fecha a casa com chave. Sobradinho velho, no meio das lojas. Só um doido desse pra ter grana e morar aqui no largo. Se bem que com o metrô sendo construído vai valorizar. Certeza. Ele deve estar apostando nisso pra fazer mais grana. Rico é tudo esperto. Quer saber, vou dar uma entrada na casa dele. Não tenho nada pra fazer. E ele sempre demora uma meia-hora pra voltar. Como diria eu mesmo: Foda-se.
Continua...
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28.6.09
Eu na Superinteressante :-)
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16.4.09
"Sonhei a saga do herói – ser adulto dói"
1.
Caminho, cotidiano, caminho cotidiano
Essa é a casa do Rodrigo, se não me engano
Caminho, cotidiano, caminho cotidiano
Voltando da escola sem ideias, sem planos.
Um vulto, um rotweiller? Um desejo proibido?
Dois ursos copulando, eu passo escondido
Na outra calçada há um gorila assassino
Eu passo travado ainda menino
Caçadores, me ajudem, desçam deste caminhão
Carregado de macacos e munição
"Menino, vá pra casa, corres grande perigo
Bestas fugiram do inconsciente perdido.”
***
2.
Em direção a minha casa, envelheço três anos
Pelos na cara, espinhas, enganos
Avisto um amigo, parece perdido
No tempo – não o conheço, isso não faz sentido
O quintal envolto por densa névoa
Rodeada de gorilas, ursos e feras
Eu entro, me embrenho, com medo, eu venho
Meu irmão lá, tranquilo, não entende aquilo
"Cara, você está louco, feche as portas e o coração"!
Vou ligar pros caçadores que ocupavam o caminhão
Veja só que estranho, que mistério sagaz
Ilegíveis letras cegam o rapaz
“Pai nosso que estais no céu...”
Não decifro o cartão
“Santificado seja o você nome”
Não aprendi a oração
Sair de casa. Enfrentar. Ah! Está triste lança não é capaz de matar.
Estraçalha a ponta na dura carapaça, e os monstros me arremessam uma horrível carcaça
Para dentro da casa, eu fujo em desespero, inseguro, sozinho, morrendo de medo.
***
3.
Negros fantasmas cercam minha adolescência
Proibidos pensamentos me corroem a inocência.
Pra dentro da casa, a couraça, o sigilo.
Encontro um bebê, muito desprotegido.
Abraço o infante, carinho e abrigo
Bizarras gárgulas fogem do armário
Puxando a criança - infeliz aniversário!
Eu choro, eu grito, mas não tenho um amigo
Minha única solução é pular na prisão
Para dentro do armário, um túnel corsário
Curvilínea queda livre, sem poder me apoiar
Horror e adrenalina não consigo gritar.
Do outro lado do mundo – será a China?
Um dia ensolarado - comercial de margarina.
A grama é verde como o cinema ensina
Ah, o céu é azul como no interior
Em paz eu caminho, saí vencedor
Estou moço e seguro não sinto mais dor
Tijolos amarelos calçam o corredor
***
4.
Pego o carro, que meu pai nunca emprestou
e sigo minha vida.
Comprida
!!!Cumprida!!!
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31.3.09
Ulysses fugiu da Grécia atrás das garotas negras de Coltrane - Frico Di Giacomo
-Leia mais poesias
Espeto a vitrola que gemendo espirra música carola
Injeta em meu cérebro o jazz espiritual de Coltrane
Já achei calmo, bonito e triste,i ncrível, né?
Como um punhado de notas matémáticas pode ter
Múltiplos significados estéticos
As garotas negras vão dançando com ritmo, no swing do sax - tem peitos empinados as garotas negras
Lou Reed também gosta de garotas de cor porque elas canta tchu ru ru
Um whiskey por favor, e mais um solo de Coltrane no céu
Leio Allen Ginsberg, um poemo louco e alado como um deus
Leio Chester Himes um romance de dourados mistérios como a madrugadora
Aurora, aquela das belas tranças
Transei Odisséias, mas não tracei Ulysses
Joyce é um chato careca quatro olhos, escrevendo suas linhas tortas
Gosto de torta na cara, como nos "Três Patetas", mas também gosto da bengala bêbada do bepop de Betty Boop
Betty Page tem peitos, quem tem bengala é Charles Chaplin
E quem dá luz ao cego é bengala branca de Santa Luzia.
Mas hoje não estou mais cego, posso enxergar a vida tão real quando um filme
Definição em tela plana, a vida me parece bem mais simples que uma equação.
Me parece um solinho punk daqueles bem alegres, que você assobia feito um doido na rua.
Os pássaros cantam, e as bichas e as mulheres aladas, e meu peido é melodioso quando como feijão com Chet Baker
Ontem devorei um filme do Polanski, acho que era sobre sexo.
REPULSA ao sexo
Eu também já senti peso católico na consciência Cristã de minhas costas curvas
Sabe, sexo seduz sempre sentindo o ser. Serei sereno e sincero
Num orgasmo cósmico criarei o universo que morrerá comigo
Meu mundo é um milhão de idéias que não consigo ecrever, de bytes, de cores, de sons e cheiros
Os filmes que eu vi, as músicas que eu ouvi, as dores que eu senti, clichês que escrevi.
As lágrimas que você quis que eu vertesse ao vivo e a cores, seu cheiro forte depois do sexo.
Tudo isso vai acabar comigo numa hecatombe onírica, no meu aniversário de 100 anos.
E ai ficarão para a história os beijos, os peidos, os livros de Bukowski, a Sessão da Tarde
As cervejas e brigadeiros, o gelo dos EUA e o calor do Mato Grosso.
Meu deus que gostoso é viver assim, com a vitrola rodando, o fumo queimando e você me amando - Fim.
"Sentir é mais importante que pensar", decreta o Ciclope - eu calo - com o cérebro no falo
Leia também:
-Resenha da "Odisséia", de Homero
-Poemas beat de Lawrence Ferlinghetti
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19.3.09
Memórias de um perdedor ta saindo pro papel
Quando eu registrei esse domínio no blogspot na primeira metade da década de 2000, era pra algum dia eu publicar aqui os capítulos do livro que, então, eu estava começando a escrever: Memórias de um perdedor. Comecei em 2003. Parei. Voltei. E agora parece que estou finalmente terminando.
Se acabar eu coloco alguma coisa aqui.
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1.3.09
Minha inspiração fugiu com outro
“Aonde vais inspiração?”
“Vou passear em outro coração”
E foi assim num - nem tão- belo dia
Que fiquei sem minha amada poesia
Já não via beleza nas curvas de mulher
No anil do céu ou brigadeiro de colher
Sorvete de creme parecia ter sal
Não via magia nem no Natal.
A minha musa cretina me mandava cartões.
Rodava nos braços de best-sellers e charlatões.
Pariu uma ninhada de alto-ajuda e bruxaria.
Bebia canções na viola da boemia.
Foi cúmplice de um gago em serenata pra namoradinha
Ensinou a moça tímida a ficar mais saidinha
No sermão do frade, ninguém mais dormia.
Na aula de física o gorducho só ria.
Humilhado e triste só esperava o pior.
Mas num sonho ei-la: feliz acorde maior
Despertei em seus braços, louco pra contar
Em forma de versos voltei a amar.
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17.2.09
Me confundiram com o Bukowski

Não por causa da minha cara feia. Mas pelo que escrevi. Aqui mesmo. Numa resenha sobre o livreo "Misto Quente" do Buk. Uma frase minha acabou indo para a Wikiquote, como sendo do velho safado.
Vê ai, enquanto não apagarem!
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30.1.09
Diário Catarinense
"Querido diário",
Cheguei em Floripa num sábado meio nublado(24/01) depois de 12 horas num ônibus convencional, que me fizeram quase perder o medo de avião. (Medo adquirido depois de uma péssima primeira experiência de viagem, em oito horas rumo aos EUA, com direito a turbulência mega, sensação de queda e meu primo que era, teoricamente, um viajante experiente, acordando desesperado gritando de medo). O taxista era um ex-músico gente fina, com forte sotaque português(na verdade o sotaque dos"manezinhos da ilha" locais), que foi me contando suas histórias de shows e gravações através do longo caminho até o Sambaqui, no norte da cidade. (Observação importante: em Florianópolis tudo é longe e cortado por rodovias, como se fossem várias pequenas cidades com características próprias ligadas por estarem na mesma ilha).
Confesso que minha primeira impressão depois de um trajeto longo o suficiente para dar 40 reais de táxi, foi de que eu estava num vilarejo isolado, sem nenhum dos confortos que um paulista que vive na "capital-londres-brasuca-que-chove-o-dia-todo", desfruta diariamente. Meu lado hipocondríaco neurótico insistia em perguntar: "se eu tiver um ataque cardíaco, onde se encontra o hospital mais próximo, por favor?". Mas essa visão logo foi dissipada quando conheci nossa pousada, simples mais confortável, o "Pouso da Poesia", dirigido por Raul Longo, um jornalista/publicitário aposentado, que herdou do Bukowski o fígado, o rosto e o gosto pelo cigarro(que ele estava tentando largar pela quinta vez). Raul disse que seu passatempo favorito e "contar mentiras para os hóspedes novos". Falsas ou não, suas histórias são saborosas. Quando ficou sabendo que eu e minha namorida, Bárbara dos Anjos, éramos jornlistas da Editora Abril, ele contou que seu pai era conhecido do velho Victor Civita, quando este ainda editava o Pato Donald no fundo do quintal. E que o próprio Raul tinha perdido o cabaço jornalístico na Editora da arvorezinha verde, escrevendo roteiros das histórias do Mickey e Cia, das fotonovelas da Capricho e encerrando sua passagem por lá na célebre revista Realidade.
Depois da conversa e do café da manhã, nossa amiga Anita veio nos buscar para uma volta no bairro, um pólo gastrônomico da ilha, ainda não devastado pelos turistas, lar de boêmios, intelectuais e artistas. O pai da Anita, Celso Martins, é um jornalista respeitado em Floripa, sempre atrás de pautas sobre a cidade e ecologia, fumando um cigarro atrás do outro, e contando histórias de quando a ilha era o porto mais importante do sul do Brasil.
Depois desse primeiro passeio ainda conhecemos a praia da Daniela, nos entupimos de camarão e cerveja no bar Restinga(o dos bonecos de Boi Mamão) e fomos dormir quebrados com a missão de desbravar mais meia dúzia de praias em nossa curta estada em Santa Catarina.
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19.1.09
Tem um Drummond no meio do caminho
Tudo o que escrevo, Drummond já pôs na estante
Tudo o que penso, Drummdond já pensou antes
Tudo que eu crio, Drummond já descartou
Tinha uma pedra no caminho, mas o safado já chutou!
-Outras poesias
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14.1.09
Hype
Amor é brega
Serenatas são piegas
Única forma de ser legal:
Discotecar hit internacional
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10.1.09
Psicodelia High-Tech
Cérebros emitem
Vibrações que dizem
Corações sentem
O que as máquinas mentem
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27.12.08
Canção de Amor
Ela pediu que eu escrevesse um canção de amor.
Mas hoje minha cabeça só tem tempo pro batente
Ela quería algo bonito tipo o Chico ou outro cantor.
Mas não consigo nem brincar de repente.
Ela pediu para eu contar uma história para dormir.
Mas só contei números que faltavam para saldar a dívida
Ela pediu para não chorar, mas era hora de ir.
E a despedida é a minha lembrança mais vívida.
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