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27.5.10

Free Jazz com palavras - Jademir Rocha + Frico

Sim, quinta-feira é a ditadura da arte. Quem não gostar será fuzilado por um pelotão de aquarelas!

Jademir Rocha ganha a vida cuidando de dentes e obturações, mas gosta mesmo - há anos - de pintar e tocar seu sax. Entre desenhos de jazz com grafite, aquarelas e pequenos artesanatos, ele vive em São Paulo em busca de novos discos para sua coleção.

Inspirado pela série de desenhos de jazz de Jademir, Frico pediu alguns para ilustrar seu livro ainda imaginário chamado "Bebop Beat", composto de poemas feitos no calor do momento, seguindo seu fluxo de consciência ao som de Miles Davis e John Coltrane. O primeiro resultado da parceria está aí:


Free Jazz com palavras
Segura só esse solo, sussurrou Ulysses
E se pôs a tocar uma odisséia sonora
Minha mãezinha do céu, Homero é um maestro com as palavras!
Elas voam na estratosfera azul do Harlem, enquanto Têlemaco repete o riff
E Penélope costura notas num bordado de arpejos e beijos
O Cíclope pede um trago a detona o contrabaixo
Eu escuto João Donato, e Posídon é a pedra no meu sapato
Gosto das palavras assim, free jazz e meu fluxo de consciência


9.2.10

Trotiskista Taciturno - Poesia

-Leia todas as poesias


para o amigo Eleutherius

Ó, Trotiskista Taciturno
Há anos não o vejo
Errante amigo noturno
Sorte na vida lhe desejo

Guerrilheiro urbano e sonhador
Marginal, militante e poeta
Criança esperançosa em topor
Mudar o mundo sua meta

Seja sempre a vida aventura
E mesmo sem tua revolução
Leva a força na tua figura

Arma de amor o coração
Endurece "sin perder la ternura"
Devora o mundo com paixão
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15.12.09

Cowboy lírico e o sorvete de creme - Frico

Neste domingo está rolando a parada gay na Avenida Paulista. Segue uma pequena homenagem beat do Clube à diversidade e liberdade de sexualidade.

O cowboy lírico entra no velho boteco
Toca Bob Dylan no iPod do traveco
"Quero conhaque nacional, meu chapa"
O fora da lei escarra seu pedido na lata

"As coisas estão mudando", diz o garçom
Ele é gay e tem um terninho marrom
"Assistiu "Milk" no espaço Unibanco"
É preto mas transa um playboy branco

Ontem eu saí de mãos dadas com meu homem na Paulista
Ninguém me xingou de bicha, isso foi uma conquista
Espero que um dia meu filho não precise fingir
Que pensa em mulher antes de dormir

"Os dias estão bem mais quentes, né?"
O taxista está suando em bicas debaixo do boné.
"É sim, meu truta, o tempo está louco"
"Temos que fazer alguma coisa, gritar até ficar rouco"

Não sei, será tão ruim um pequeno apocalipse?
Os bons se salvarão num eterno eclipse
Os homens morrem mas o universo segue imenso
Os dinossauros foram pro saco e ninguém ficou tenso.

"Me dá um dinheiro senhor, eu também tenho fome"
Eu tenho dinheiro, mas não dei, hoje ele não come
ver muitas vezes a Mona Lisa faz dela uma puta
Ver muitas vezes a miséria tira a fé na nossa luta.

O Cowboy lírico dispara certeira sua poesia
Cria universos vermelhos de uma gostosa anarquia
Liberdade não é bagunça, diz a pichação na minha cidade
Rita Cadillac rebola celulite e idade

"Gosto de mulher assim, saca? De verdade"
"O que é a verdade, meu querido? Homem é diversidade"
"Você gosta de homem, eu gosto de poesia."
"Sua verdade heterossexual me mata de asia. "

Conhaque agradável, fica saboroso com cerveja.
Essa música do Radiohead faz sentido com tristeza.
Não existe uma verdade, mas existe a felicidade?
Filósofo de boteco, vá beber na faculdade.

Vou ensinar os alunos a serem felizes, ensiná-los o gosto
Da chuva? Do corpo banhado em vinho? Das covinhas do seu rosto?
Não, tenho a felicidade sintetizada num wireframe
Se resume a um pote grande com calda e sorvete de creme

Frico deixa de lado a carcaça branca machista quando sonha que "Espero que um dia meu filho não precise fingir". Além do jornalismo que lhe paga o salário, ele escreve poesias, resenhas e bebe

24.11.09

Augusto dos Anjos - Eu e outros poesias, 1912

-Leia "Uma Visão Memorável" de William Blake
-Poema: "Meu medo"

Versos Íntimos
Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro da tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Eu e outras poesias
"Eu" é o único livro publicado em vida pelo poeta paraibano Augusto dos Anjos. Mistura de técnica parnasiana com temas simbolistas e que acabou classificada na segunda metade do século XX como "pré-modernista", sua poesia se tornou popular apenas após a morte do autor.

O livro foi publicado de forma independente no Rio de Janeiro, em 1912. Após a morte de Augusto, foi lançada uma nova versão da obra com poemas inéditos que ficou conhecida como "Eu e outras poesias".

-Quer mais poesias
?

Versos a um coveiro
Numerar sepulturas e carneiros,
Reduzir carnes podres a algarismos,
Tal é, sem complicados silogismos,
A aritmética hedionda dos coveiros!

Um, dois, três, quatro, cinco... Esoterismos
Da Morte! E eu vejo, em fúlgidos letreiros,
Na progressão dos números inteiros
A gênese de todos os abismos!

Oh! Pitágoras da última aritmética,
Continua a contar na paz ascética
Dos tábidos carneiros sepulcrais

Tíbias, cérebros, crânios, rádios e úmeros,
Porque, infinita como os próprios números,
A tua conta não acaba mais!



Augusto dos Anjos

Poeta queridinho de punks e góticos, Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos(Sapé, 20 de abril de 1884 — Leopoldina, 12 de novembro de 1914) formou-se em Direito, mas nunca exerceu a profissão. Dedicou-se ao magistério e chegou a ser diretor de uma escola. Morreu jovem, em decorrência de uma pneumonia. Uma das principais características de sua poesia é o uso de termos populares mesclados com expressões científicas/eruditas.

- Poesia punk, vai encarar?

Ao Luar

Quando, à noite, o Infinito se levanta
À luz do luar, pelos caminhos quedos
Minha tátil intensidade é tanta
Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos!

Quebro a custódia dos sentidos tredos
E a minha mão, dona, por fim, de quanta
Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos,
Todas as coisas íntimas suplanta!

Penetro, agarro, ausculto, apreendo, invado,
Nos paroxismos da hiperestesia,
O Infinitésimo e o Indeterminado...

Transponho ousadamente o átomo rude
E, transmudado em rutilância fria,
Encho o Espaço com a minha plenitude!

-Autores consagrados

1.3.09

Minha inspiração fugiu com outro

“Aonde vais inspiração?”
“Vou passear em outro coração”
E foi assim num - nem tão- belo dia
Que fiquei sem minha amada poesia

Já não via beleza nas curvas de mulher
No anil do céu ou brigadeiro de colher
Sorvete de creme parecia ter sal
Não via magia nem no Natal.

A minha musa cretina me mandava cartões.
Rodava nos braços de best-sellers e charlatões.
Pariu uma ninhada de alto-ajuda e bruxaria.
Bebia canções na viola da boemia.

Foi cúmplice de um gago em serenata pra namoradinha
Ensinou a moça tímida a ficar mais saidinha
No sermão do frade, ninguém mais dormia.
Na aula de física o gorducho só ria.

Humilhado e triste só esperava o pior.
Mas num sonho ei-la: feliz acorde maior
Despertei em seus braços, louco pra contar
Em forma de versos voltei a amar.

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