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23.5.10

"Não vendi minha alma."
"Apenas aluguei por alguns anos de um bom salário".

15.3.10

Mulheres II: Quando acordam

-Todos os contos

Este conto é um trecho do livro "Memórias de um Perdedor", em breve nos melhores botecos.

Quando acorda, olhinhos fechados, Nathália tem cara de azul, gosto de esperança, cheiro de paz. Me lembra incenso queimando. Viajo longe... Fico olhando seu rosto, tentando ler uma história, mas sua pele macia não tem rugas e nem verbos. Só farejo vestígios de uma boa notícia, meu instinto jornalístico é mais forte que minhas desilusões com a profissão. Ela bate o despertador e volta pro sono. Murmura, cansada, quase pedindo:

_ São seis ainda, vou dormir mais meia horinha...

Tudo bem, meu anjo, durma quanto quiser, enquanto isso, peço pra dEUS(se eLE existir), que estique essa meia hora em um dia, pra que essa menina possa descansar de todo uma vida, pelo menos dessa vez.

Seus cabelos são lisos, negros, olhos puxadinhos, boca carnuda, parece índia. Só um ano mais velha, mas toda uma vida na minha frente. ELA: trabalha desde os dezesseis. EU: me desfaço em lágrimas e borro as calças por um estágio de duzentos reais ao mês. Se mantém na cidade com nove horas diárias de trampo numa empresa de suco em pó. Embalam de tudo por lá: suco, sonhos, lágrimas e suor dos operários, desidratam, tiram toda água e humanidade e depois deixam os funcionários voltarem sentindo um buraco em seus corpos. Nem passa em casa, vai pra aula, vender seus sonhos em troca de “comunicação social com habilitação em jornalismo”. Fala comigo e o tempo para. Meiga, quase uma menina, com histórias que deixariam todas minhas noivas neuróticas a ponto do suicídio. Gosto de ouvi-la. Quando chega em casa vira suco.

_Eu falo demais, né?

Não, linda, adoro te ouvir, você me fez voltar a escrever depois da síndrome de pânico, da hipocondria e do coração partido. Parece que eu não escolho mulheres ou pretendentes, mas boas histórias. E você é cheia de boas histórias, me conte uma, vai:

_ Tinha uma indiazinha que morava na quebrada de São Paulo, Freguesia do Ó .
_Como chamava essa indiazinha?
_Hum... Chamava Iracema!
_A virgem dos lábios de mel?
_Não, nada mais de virgem, os pais não gostavam da ideia, mas ela transou com um namorado legal, até, aos dezessete anos...
_E o que fazia essa indiazinha? Caçava, pescava? Fazia artesanato?
_ Não, artesanato é coisa de hippie. Trabalhava e estudava!
_ Hum... Que mais?
_ Bom, um dia, cacique bateu na sua esposa e a indiazinha partiu pra cima dele
_Jura?
_ Sim, dizem que era de uma tribo de amazonas guerreiras.
_Certo, certo,que mais?
_ Bom, deixa eu ver, o irmão da indiazinha, resolveu virar mulher...
_ E aí?
_Aí, o cacique o expulsou da aldeia, mas sua mulher não deixou. O cacique saiu de casa, e sua mulher cortou os pulsos.
_ (...*) É um mundo horrível, não é?(...) Vem, dá um abraço!

O mundo é horrível e ela me abraça, enroscada no meu corpo, mas quem precisa daquilo sou eu. Naquele emaranhado o (quase) homem de um metro e oitenta é, na verdade, embalado pela menina-mulher de um e sessenta e quatro. Ela aninha a cabeça no meu peito e sua respiração na minha pele faz um bem danado.

_É, a tribo só se reuniu quando Iracema foi estudar fora. Aí, um dia, um homem mau a parou na rua. Ele tinha nos olhos toda a cólera dos novos tempos. Toda raiva sem sentido que as pessoas frustradas carregam. Assaltou-a e tentou violentá-la. Falou e fez coisas horríveis. Ela nunca pôde falar pro cacique ou pra mãe.
_ (...*)(...*)Os homens são uns animais, né? Deviam ser todos castrados... (...*) Ela não ficou com trauma de sexo?
_ De sexo não, mas ficou com medo de sair de casa por um ano...
_ E aí?
_Aí, ela encontrou um louco que pensava que era príncipe, um bufão. E ele animou sua vida, enquanto as cicatrizes fechavam.

Sou um palhaço triste, já escrevi e repito, agora, você me tirou dessa. Obrigado. Olho pra sua cara, seis e meia da manhã. O primeiro ônibus passa sete e vinte e leva até o centro. O segundo você pega quinze pras oito. Volta direto pra aula às sete da noite. Amanhã, vou pensar que sou uma franga com medo da vida e você é forte como ferro. Mas agora, só olho pra você, abraço seu corpo, e peço que dEUS transforme sua meia hora de sono num dia inteiro.

*(...) = Silêncio da vida real.

***
-Leia também "Mulheres I: Anjas Tortas"
Foto: Eloisa G


Quando acorda, Ana tem cara de vermelho. Faz barulho, um barulho estranho, meio perdida. Quando volta ao nosso planeta, é toda um sorriso bonito, gosto de curiosidade, cheiro de auto-estima, parece criança feliz, descobrindo o mundo com uns olhões arregalados. Nunca transamos, mas adoro acordar com ela ao meu lado. Sentir seu corpo inteiro junto ao meu, todo branco, cheio de pontas vermelhas. Ela beija minha boca com gosto, diz que é boa porque babada.
Ana gosta de meninas e gosta um pouco de mim. Já gostou mais, mas ainda somos amigos. Nunca cheguei nem perto da sua virgindade. Ela só dorme com mulheres, diz que casa virgem. Pelo menos, de homens. Beijo cada dedo do seu pé e ela fica louca, se contorce. Depois pratica com a namorada, diz que a iniciei nos “prazeres do pé”.

Completa em sua ingenuidade.

Às vezes, ficamos horas na cama, nus, beijando corpos, átomos, células e futuros cadáveres. Todo mundo é um necrófilo por antecipação.

Um dia beijou o professor de literatura, agora têm um caso. “E a gente, Ana, o que nós temos??”
Não sei se te amo, se vou te amar ou se te amei. Sei que gosto muito de ficar com você. Um abraço seu cura minha carência, meu medo da vida, meu medo da morte. Nos teus braços, sou imortal por um instante. No teu abraço, uma eternidade supérflua.

Ela ainda fica comigo, porque sou o único que não me apaixono por seus cabelos cor de fogo. Todos, homens e mulheres estão aos seus pés. Eu também estaria se não fosse cego e louco. Um perdido na vida, não faço por mal. Ela sabe disso e se diverte. Deixa que eu beije seu piercing no mamilo, puxo com os dentes, coloco a mão no meio da suas pernas. O telefone toca. Uma “EX”. Primeiro minha, e depois a dela.

A minha quando acorda é verde, tem cheiro de braveza, mas gosto de desafio. Sonhei que um dia as duas se beijavam. Não importa, a Ana sai voando pela sala e volta no dia seguinte, até que eu enjoe das preliminares e ela enjoe de barba. Então cada um de nós vai procurar dormir com uma mulher diferente. E a história acaba assim.

***

Quando acordo sozinho a vida parece cinza, tem gosto de vazio e cheiro de solidão. Abraço forte o travesseiro e fico acordando com falta de ar. Sozinho, de cueca, o mesmo pesadelo de sempre, sinto como se fosse morrer e me cago de medo. Sou mais um perdido numa noite suja. Só. As mulheres com seus sorrisos preenchem meu eu. Sou viciado em seus hormônios e, sem seus encantos, só brEU.
Só.
EU

“De perto nem os anjos têm asas.”

Leia também:
-Milagre na Rua Augusta
-Sim, eu já tentei matar o Paulo Coelho
-Amor em tempos de Aids

3.11.09

Falo na testa - Conto

-Outros contos

Naquela manhã, Juarez Pensa acordou mudado. Sentiu seu rosto alongado. Uma cósquinha estranha na cabeça, onde se localiza o “terceiro olho” dos yogues, bem ali, no meio da sobrancelha. Acordou de pau duro, como sempre. Estranho, a testa também tinha algo enrijecido. Talvez uma espinha grande. Foi até o banheiro espremendo a espinha gigante. Ejaculou no espelho: tinha um pau na testa.

Suvenir City era uma cidade pequena, onde novidades voavam com velocidade da luz. Algumas novidades voavam com velocidade do som e outras preferiam voar de avião mesmo. A última grande notícia fora o menino que voara. Era um daqueles tipos estranhos, sempre sozinho no recreio, ruim de bola e grudado em livros. Um dia levantou da cama com um sobretudo preto. Seus pais estranharam. Lembraram-se dos massacres nas escolas americanas. A tal máfia do casaco. Meninos excluídos pelos outros vestiram-se com sobretudos pretos e abriram fogo dentro do colégio. Um horror! Ficaram com medo. O pai preocupado tratou de ter um diálogo franco com o filho:

_ Filho, você está se sentindo bem?
_ Sei lá, pai, estou meio diferente...
_Drogas?
_ Pai, eu nunca nem bebi.
_ Ah, não? Certo... Continua virgem?
_ Pai, eu nunca nem beijei uma menina...
_ Ah, certo... Você vai matar alguns alunos hoje?
_ Não pai, eu não tenho nenhuma arma. E eu tremo demais. Se fosse matar alguns alunos provavelmente atiraria no meu pé...
_Bem, então acho que está tudo bem. Tome seu café, senão vamos nos atrasar, eu te dou uma carona.

Café com leite tinha gosto de café com leite. Para o menino com asas tinha gosto de angústia. Leite com chocolate tinha gosto de tristeza. E café preto tinha gosto de ódio. Naquela manhã, achou o café com leite muito bom e sentiu um gostinho de luz no fim do túnel bem aprazível para uma manhã nublada. Manhãs nubladas tinham cheiro de nostalgia e forma de velhas fotos preto-e-branco.

Menino alado saiu de casa com sobretudo preto e entrou no carro do pai. Menino alado sentiu um comichão nas costas algumas semanas atrás. Menino alado entrou na escola, subiu na caixa d’água e voou alto. Ninguém entendeu. Acharam que eram drogas ou que ele era veado. Chamaram a polícia e os bombeiros. Chamaram o padre e um psicólogo. Chamaram também uma pizza. Meia aliche, meia calabresa como o diretor do colégio gostava. Menino alado voou alto, por entre os prédios de Suvenir City. Via o mundo diferente lá do alto. Cantou What a wonderful world, flutuando sobre dEUS.

O diretor parecia desesperado, gritava para que o moleque descesse. Um promotor veio ver se o menino tinha alvará ou brevê. Multou-o em trezentos euros ou mil reais. Multou a escola também. O diretor ficou desesperado e arrancou os fios de cabelo da careca. Depois, um advogado revogou a sentença, porque não existia brevê ou alvará para meninos alados. A escola até lucrou um pouco com a propaganda. Muitas crianças achavam que estudando lá iriam sair voando. Tudo isso foi depois, na hora o diretor careca devorava a pizza meia aliche, meia calabresa, bufando e gritando para o menino descer. Ele nem escutava, só falava agora a língua dos anjos.

O capitão da polícia ligou para o governador, ele preferiu se abster, como sempre. Os políticos estão sempre em cima do muro em questões gratuitas. Quando não se recebe por uma decisão é melhor abster-se. Passaram-se horas e o capitão sem saber o que fazer. Seguiu as ordens do diretor careca.

_Atire nesse moleque, ele é um terrorista, ele é um terrorista!_ Gritava com a boca cheia e as mãos engorduradas. Achava que era um atentado em Suvenir City como o que vira na televisão.

Os árabes tinham derrubado duas torres com um avião nos Estados Unidos. Quem sabe o menino não quisesse derrubar o coreto ou a fonte com suas asas? Atiraram: seis tiros de pistola, seis de trinta e oito e dois de escopeta. Erraram quase tudo. A polícia brasileira não tem o treinamento específico para acertar crianças com asas. Um tiro cortou as asas do moleque... Ele foi caindo em direção ao horizonte e desapareceu fundido ao sol. Ninguém sabe se está vivo ou não. Nunca voltou a cidade. E quem por ventura ganha asas as mantém bem escondidas com jaquetas de couro e sobretudos pretos. Mesmo no verão, que em Suvenir City é bem quente.
Toda essa história era para exemplificar que “as notícias corriam rápido em Suvenir City”. Todos sabiam do garoto alado, e a própria família do menino teve que se mudar de lá. Imagine, então, o drama de Juarez Pensa ao acordar com um pênis na testa? Não era uma coisa cotidiana e podiam até manda-lo para um zoológico ou programa de auditório sensacionalista.

-Fodido na vida quer ser serviçal de um vampiro no Largo da Batata



“Acordei com um pau na testa”. Pensou ele. “Agora, o que vou fazer?”. “O desgraçado ainda está duro... E sujou o meu espelho, droga”. Primeiro de tudo, tratou de limpar o espelho. Usou álcool e papel higiênico com aroma de pêssego. Depois, foi procurar um chapéu, tinha um de vaqueiro que comprara quando ia aos rodeios. Não adiantou muito, mas pelo menos disfarçaria uma possível ereção. Saiu do quarto para tomar café da manhã. Esperava aflito a reação da família.
Café preto com pastilhas coloridas. Amarelando os dentes. Adoçante. Manteiga artificial. Sangue humano se tornando química.

_Bom dia querido, levantou mais tarde hoje?

“Meu dEUS”, pensou, “ela vai notar, ela vai criar um escândalo, chamar a polícia, pedir o divórcio. Quem gostaria de ter um marido com um pênis na testa? Um pênis já era um problema: sempre querendo sexo, gozando rápido, brochando, encanando com seu tamanho. E agora? Dois! E um bem no meio da testa! Ah, não, ela o largaria com certeza”.

A mulher aproximou-se com o bule de café. Despejou-o na xícara de Juarez. Levantou seu chapéu. “Agora ela arma um escândalo”. Nada. Beijou o na testa como fazia toda manhã. Lambeu os beiços e fez uma cara curiosa(“Hum!”). Deu outro beijo, e outro ainda mais demorado. Começou a chupar o pau com vontade. Olhos fechados, lábios cobrindo os dentes para não machucar. Até ele gozar dentro da sua boca, como nunca deixara.(Na verdade sempre achara nojento.) Engoliu tudo e abriu os olhos, como se saísse de um transe. Continuou como se nada tivesse acontecido.

_ Fazia tempo que você não punha esse chapéu. Ficou bem em você, me lembra quando a gente ia aos rodeios.

Incrível, nem uma palavra sobre o pênis na testa! E ainda ganhou uma chupeta extra e um orgasmo písico. Começou a gostar do novo membro. Barulho nas escadas: as crianças, agora estava frito. Não poderia ganhar uma chupeta dos seus filhos. E o que seria dos dois na escola? A humilhação pela qual passariam? Seus coleguinhas não iam perdoa-los. Azucrinados no recreio, com milhares de apelidos ofensivos, pediriam para que o pai não os buscasse na escola. Iriam viver com os avós na capital. Uma família destruída por causa de um pênis na testa...

_ Paizinho?
_ Sim, querida?
_ Que é esse negócio estranho na sua cabeça?
_ É um p...
_ É um chapéu de vaqueiro, tonta! Não sabia que o pai era cowboy?
_ Ele não era cowboy, ele só gostava de ir aos rodeios, seu idiota.
_ Eu achei legal, papai. Ta parecendo o Clint Eastwood.
_ É, até que não é ruim, paizinho. Esconde suas entradas.

Nem a Marina e nem o Gustavo. Ninguém comentara nada. O cachorro vira-latas pulou em seu colo e lambeu seu membro, feliz. Aquilo fazia cócegas. Diabos, o cachorro nunca fora com sua cara, sempre rosnava. Aquele pau estava mudando sua vida. Mas que barbaridade, ninguém percebia que ele era um homem com um pênis na testa? Ele era quase um unicórnio, uma lenda. Deveria ser reverenciado. Talvez fizessem uma estátua dele. Ou o entrevistassem no jornal. Quem sabe ele não iria até o programa de domingo. É, isso parecia bem razoável. E depois poderia retirar-se por alguns anos nas montanhas, a fim de meditar. Não sabia bem o que se fazia meditando nas montanhas, mas parecia uma coisa bem profunda. Era disso que ele precisava. Era um cara superior até. Sempre soubera. Entrou no carro e deixou as crianças na escola. Foi para o trabalho. Odiava! Era técnico em uma emissora de televisão, punha e tirava os programas do ar. “Operador de máster” era como o chamavam. Dizia para os vizinhos que tinha um cargo importante na tv, diretor ou produtor. Na verdade as únicas estrelas que via era as que surgiam pelos buracos no teto, quando trabalhava no turno da noite.

O patrão era um porre. Bicha enrustido. Tinha uma secretária gostosa que insistia em bolinar na frente de todo mundo. Um fresco! Chamava Hugo. Os técnicos o chamavam de Hugoloso porque achavam que era gay. Diziam que tinha um caso com o estagiário. Juarez odiava o patrão. Algum empregado não odeia? Alguma empregada doméstica nunca teve vontade de cuspir na comida ou mijar na roupa da patroa? Ele odiava Hugo. E Hugo humilhava Juarez. Sempre. Chamava-no de burro na frente dos outros. Sempre achava que ele tinha soltado os comerciais atrasados. Dizia que se vestia mal, que deveria vir para o trabalho mais alinhado. O puto não sabia quanto custava uma camisa social? O dinheiro era escasso e as bocas para alimentar eram muitas.
Chegou no emprego. O pênis na testa tinha broxado. Desanimado. Parecia uma verruga, não assustava ninguém. A secretária o olhou de um jeito diferente.

-Poesias em ritmo de punk rock

_ Bom dia, senhor Juarez!

“Bom dia senhor Juarez”? A vaca mal falava seu nome! E ainda “senhor”? O que estava acontecendo? Aquele pinto em sua cabeça deveria ser muito grande. Olhou-se no espelho! Caramba! Duro deveria ter quase trinta centímetros! Uns vinte e sete talvez! E ele acostumado com a pistolinha de quinze! Caramba! Estava confiante de novo.

_ Senhor Juarez, o que tem na cabeça?
_Ah, eu posso explicar, Hugo...
_ Está atrasado de novo!
_Ah, sim... Ufa! Me desculpe! Por um momento...
_ Sem desculpas, senhor Juarez, venha imediatamente a minha sala!
Com certeza seria despedido agora. Maldito Hugoloso! Passou pela secretária e ainda fez alguma brincadeirinha. Achava-se “O” conquistador. Bicha enrustido! Entraram na sala! Era grande e confortável. Tinha um frigobar ao lado da mesa do patrão. Ele pegou um whiskey: Jonnhy Walker Black. Original. Serviu-se.

_Senhor Juarez, você tem se atrasado constantemente.
_Não é bem assim... Essa é a segunda vez no mês...
_Sim, mas eu tenho lhe repreendido muitas vezes durante o trabalho.
_ Isso é verdade, mas eu tenho me esforçado...
_ Eu sei! Agora eu percebo! Agora eu vejo que você tem uma cabeça diferente dos outros. Aceita um copo de whiskey? Eu gostaria de lhe oferecer um Blue Label, mas infelizmente só tenho Black...

Blue Label? Quem aquela bicha queria impressionar? Juarez só tomava whiskey em casamento. Red Label e olhe lá! Pelo menos as coisas pareciam estar mudando de rumo! Talvez o patrão percebe-se que Juarez era uma pessoa diferente das outras, talvez ele lhe promovesse...

_ Como disse, senhor Juarez, percebo que você tem algo a mais que os outros funcionários! Estou pensando em promovê-lo, senhor Juarez. Posso chamá-lo apenas de Juarez?
_ Claro, senhor Hugo! Fique a vontade, mas que tipo de promoção seria essa?
_ Diretor Geral! Você seria responsável por toda a programação produzida aqui na emissora. Poderia até mesmo ter um programa só seu, se quisesse.
“Um programa? Só meu? Isso é fantástico!”, pensou Juarez, “Serei famoso de uma hora para outra, tudo graças a esse pinto gigante na minha testa!”
_ Obrigado, senhor Hugo, não sei nem como agradecer! Estou muito feliz.
_Deixe eu lhe contar um detalhe particular... Venha aqui._ O patrão fez um gesto com a mão para que Juarez se aproximasse. Tinha óculos com aros grossos, cabelo franjinha preto e ficava com pedaços de baba branca nos lábios quando falava. Juarez se aproximou do patrão, colocando o ouvido perto de sua boca. O pênis na testa quase roçava nas sobrancelhas do Hugo.
_ Fale, senhor Hugo.
_ Chame-me de Hugo, Hugoloso!_ E enfiou a língua na orelha de Juarez, agarrando-o. Tentou abocanhar o pênis na testa, mas Juarez o empurrou longe!
_ O senhor está louco? O que está pensando, meu dEUS? Eu não gosto dessas coisas! Sou casado!
_ Você acha que eu não sei que você e os outros técnicos ficam zombando de mim? Me dando apelidos! Eu escuto tudo! E muitos dos técnicos já receberam um bônus extra em seus salários por me deixarem fazer um servicinho oral pra eles. _ O patrão lábia os beiços, doido pra sugar a “força de trabalho do proletário.”
_ O senhor está louco! Eu não quero nada disso! Sou casado! _ E saiu correndo, o patrão gritando atrás: “Me chame de Hugoloso! Me chame de Hugoloso!”

Juarez não sabia o que fazer, o pênis na testa estava mole. Corria em direção à porta, o patrão ensandecido atrás com as babinhas brancas na beiçola vermelha. Foi ai que a secretária gritou:

_ Rápido, senhor Juarez, por aqui!

Ela estava no almoxarifado. Juarez entrou correndo e ela trancou a porta ligeira. Hugo passou reto correndo e gritando: “Me chame de Hugoloso. Me chame de Hugoloso”, para o deleite dos técnicos da emissora.

_ Está um pouco escuro aqui, né?
_É, está bem escurinho, senhor Juarez.
_Sorte que você me ajudou, o patrão estava louco atrás de mim.
_ Ele tinha motivos...
_Não, sabia que você ia com a minha cara. Sempre te achei meio antipática, sabia? Nem imaginei que você soubesse meu nome...
_ É que eu nunca tinha reparado no senhor direito, Senhor Juarez.
_Seu nome é Lúcia, né? O pessoal do estúdio nunca ia acreditar que eu fiquei preso no almoxarifado com você...
_ Ah, é? Por quê? O que tem de mais num almoxarifado? Rodinhos, detergentes, cabos de vassoura...
_ Ei, Lúcia, isso não é um cabo de vassoura, é meu...
_ Eu sei, relaxe, bobinho.

E ela começou a tocar o terceiro olho de Juarez com suas mãos pequenininhas. Ele não se conteve, começou a bolina-la. Tinha um corpo escultural. Cabelos loiros compridos, olhos verdes, bunda gigante. Pernas finas, com sandálias de salto, descobertas pela minissaia. Batom vermelho.

_Achei que você tivesse um caso como patrão...
_ Aquele veado, só me usa para impor respeito. Na verdade, ele paga pra chupar os técnicos.
_ É, eu descobri isso hoje... Sabia que você é muito gostosa?

Ela não pode responder , estava ocupada. Juarez tentou possuí-la, mas ela não deixou. Não tinha olhos para seu “membro oficial”. Terminou o serviço com o chifre de unicórnio e saiu do almoxarifado rebolando, como se nada tivesse acontecido.

“Rapaz, o pessoal do estúdio não vai acreditar”. Juarez saiu de fininho da emissora, mas nem trombou com o patrão. Ele devia estar entretido com algum estagiário. Aquele “corpo estranho” começava a causar incômodos ao Juarez. Se tinha ganho uma chupada da secretária, já não podia se arriscar a ir ao trabalho sem ser assediado pelo patrão. Pensou em visitar um médico. Seu urologista talvez, Jacinto Deditos. Era um bom médico. Enfiou o chapéu de cowboy na cabeça e chamou um táxi. O taxista parou mais rápido que o normal. Devia ter visto o membro em riste de longe.

Chegou no consultório afobado. A secretária gorda parecia ter síndrome de down, nem prestou atenção no que Juarez falava, não tirava os olhos de sua testa. Disse que havia janela entre os horários do Doutor Deditos, Juarez só iria precisar esperar quinze minutos. Sentou no sofá de espera e abriu um jornal para tentar disfarçar o pênis dos outros pacientes. Havia crianças sentadas ali e ele ficou com vergonha. Sentiu-se um desse tarados que saem abaixando as calças no meio da rua. Ficou vermelho. O pênis, roxo e mole, encolheu-se ainda mais. Parecia ter menos de dez centímetros agora. Por sorte o Doutor Jacinto chamou-o logo.

-Às margens do Rio Piedra sentei e caguei

_ Pode vir, Juarez.
_ Bom dia, doutor, estou com um problemão!
_ Não diga rapaz, você está com uma cara ótima. Fazia tempo que não te via bem assim. Sente-se.
Entraram na salinha do Doutor Jacinto Deditos. Sala de médico comum, paredes brancas com diplomas, aparelhos para exames. Uma mesinha com cadeiras.
_ O que está acontecendo, Juarez?
_ Doutor, nem sei como te contar. Estou com um... Com um... Um pênis na minha testa.
_ Jura? Nem tinha reparado! Tem certeza que não é uma espinha?
_ Desse tamanho doutor?
_ È verdade, é bem grande mesmo... Será um câncer?
_ Não acho, doutor. Fica ereto e funciona como um pênis comum.
_ “Funciona”?
_Sim, ejacula e faz todo o serviço...
_Você já testou?
_ Sim...
_Usou camisinha?
_ Não...
_Isso é mal, devemos nos prevenir, mesmo nas situações mais fantásticas!
_ Só fiz sexo oral até agora...
_ Mesmo porque, anatomicamente, outra coisa seria mais complicado, né?
_Exato, doutor, e maioria das pessoas parecem nem nota-lo.
_ Mas é que em você nem chama muita atenção, você sempre foi um homem tão comum, que esse pênis na testa te deu um... “Algo a mais”.
_Não sei doutor me sinto incomodado. Esse “algo a mais” anda me causando problemas...
_ Compreendo. Teremos que extraí-lo então.
_ Extraí-lo?! O senhor não acha uma medida muito drástica?
_É a única solução. Raquel, traga-me o bisturi e a serra!
_Serra?! Doutor Jacinto, eu não tenho certeza!
_O médico aqui sou eu!
_ Doutor Jacinto eu me recuso a passar por essa castração!_ E saiu correndo.

Desesperado, as pessoas na rua pareciam não notar sua diferença. Ele continuava sendo mais um andando nas calçadas. Mais um anônimo no ponto de ônibus. Onde as pessoas nunca conversam. Naquela cidade, nem mesmo um homem com um falo na testa era notado. Correu até um bairro em que nunca estivera. Havia algumas lojas ali: uma de vestidos de noiva e uma de eletrodomésticos. Na vitrine da loja das noivas, uma manequim linda, que parecia ser real, apesar do véu, percebia-se que tinha olhos castanhos e cabelos vermelhos. Juarez olhou-a fixamente. Só desviou para prestar atenção no noticiário, transmitido por um dos televisores, na loja de eletrodomésticos.

“Diretor de emissora é assediado por homem com pênis na testa. Hugo L. Osa, diretor da Tv Comunidade, foi assediado sexualmente por um de seus técnicos que estava armado com um pênis preso à testa. O tarado teria atacado, ainda, a secretária de Hugo, que não quis se identificar. A polícia já tem o retrato falado do maníaco, que atende pela identidade de Juarez Pensa.”

“Meu dEUS?! O que está acontecendo comigo? Ontem eu era um funcionário pacato e hoje sou acusado de estupro! Será que minha mulher assistiu à televisão? O que as crianças vão pensar? Seu próprio pai! Um criminoso! A polícia deve estar atrás de mim! Daqui a pouco as pessoas vão começar a me reconhecer na rua. Estou fodido! Tudo por causa desse maldito pênis de vinte e sete centímetros na testa!”

_Manhê!!!!!!!!! Olha o tarado!

Todas as pessoas na rua se viraram para Juarez de uma vez. O homem entrou em desespero! Não sabia para onde correr. Olhou para a manequim na vitrine e ela pareceu se mover. Chamou-o com o indicador. Juarez não pensou duas vezes, pulou dentro da loja, estilhaçando o vidro. Rolou agarrado à manequim no chão e os dois levantaram juntos.

_ Siga-me. _ Ela disse.

Juarez já nem se assustava. Tanta coisa acontecera aquele dia, que ele só pensava em fugir dali. A manequim o levou através de uma escada no fundo das lojas. Era uma mulher de carne e osso. Talvez uma dessas estátua vivas, que ficam pintadas sem se mover para ganhar alguns trocados. Desceram até chegar numa sala subterrânea.

_Vamos ter que fugir agora, Juarez, teremos que correr até o horizonte, até nos fundirmos com o sol...
_Olha moça, tudo tem acontecido tão rápido que eu não entendo mais nada. Por que você está me ajudando?
A mulher tirou o véu de noiva do rosto. Havia uma vagina em sua testa. Juarez entendeu, então, que não estava sozinho naquele mundo.

03/06/05.

-Esses dias aconteceu um milagre na rua Augusta

17.8.09

De como me tornei serviçal de um vampiro em tempos de Gripe Suína - parte 3

-Saiba como essa zona começou. Leia a primeira parte desse conto

-Na segunda parte do conto, nosso amigo descobre o vampiro Dusseldorf


Ilustração: Sabrina Barrios<

Depois do meu primeiro “expediente”, fui até minha casa e levei tudo que tinha pra morada do meu novo “patrão”. Comprei no camelô um óculos escuro invocado, tipo Ray-Ban, e descolei uma arma que o Gusmão arranjou mesmo sem documentação em nome da nossa “velha amizade”. Falei pra mamãe que agora era segurança e talvez ficasse sem dar notícias por algum tempo. A Katiúscia estranhou que contratassem alguém tão magro como eu para ser segurança. Minha vida sexual continuava nula, mas eu estava curtindo essa “nova fase”. Pena que não pudesse abrir o bico com ninguém, com o risco de que o velho arrancasse minha cabeça. Dusseldorf era seu nome. Demorei um bocado pra conseguir pronunciar. Ele me explicou que tinha aquele sotaque estranho porque era alemão. Tinha sido “convertido” no começo do século XX, o que para um vampiro era pouco tempo. Mudara para o Brasil depois da Segunda Guerra Mundial(período no qual virou uma espécie de hiena carniceira, só se alimentando dos mortos em combate). Logo se estabeleceu em São Paulo, no bairro de Pinheiros, que segundo ele é o mais antigo da cidade. Parece que tribos indígenas eram aglomeradas ali, pelos jesuítas, em volta da igreja do Largo de Pinheiros. Mas isso muito antes dele chegar aqui, lá pelo século XVI. Eu gostava do vampirão porque ele era inteligente e me ensinava uma porrada de coisas, mas não confiava em mim e queria me testar antes de me dar umas gotinhas do seu super-sangue.
_Saco de ossos!
_Sim, Dusseldorf.
_Você pode me chamar de mestre Dusseldorf? É assim que os lacaios tratam seus amos.
_Cara, a Lacraia era de uma cidade perto da minha, sabia? Ela nasceu em Promissão.
_Eu disse lacaio, seu energúmeno.
_Ah, desculpe...
_Enfim, saco de ossos, vou precisar de sua ajuda.
_Tá, o que você quer?
_Dois porcos frescos para eu sugar seu sangue.
_Putz, e as vagabas do “Jackson’s Girls”?
_ Vagabas? Que linguajar chulo, saco de ossos. Eu deveria drená-lo agora mesmo e deixar sua carne barata para Cérbero.
_Foi mal, foi mal... Mestre.
_Duas garotas do “Jackson’s Girls” estão com suspeita de Gripe Suína. Ele preferiu fechar a casa.
_ Puta epidemia louca, né?
_ É bem melhor do que a Espanhola, e eu sobrevivi a ela mesmo já tendo uma certa idade...
_Com quantos anos você, você... Se converteu, passou dessa pra melhor, começou a curtir mais pescoços do que mulheres, sei lá.
_ Cinquenta! Mas chega de suas imbecilidades! Arrume as carcaças de porco frescas para que eu ainda possa sugar seu sangue quente. Rápido!
***
Puta merda, como eu ia arranjar uma carcaça de porco fresca? Era mais fácil arrumar um porco vivo. Será que os vampiros vegetarianos não matavam nem animais? Eu, hein, puta boiolagem. Aliás, eu tinha quase 70% de certeza de que o Dusseldorf dava marcha ré no quibe cru. Ele passava o dia ouvindo uns compositores clássicos “barulhentos” como um tal de Arnold Schoenberg e também o Wagner. Eu tomei uma coça uma vez porque disse que o Schoenberg era pior que rock ‘n’ roll. Ele odiava rock ‘n’ roll, dizia que a música tinha morrido com “os ritmos primitivos do jazz”. Rap e funk para ele não mereciam nem ser discutidos. De samba ele gostava, por ser uma “autêntica forma de expressão tribal”. Inclusive, ele tinha uma amigona que adorava samba e tinha um terreiro. Era a Mãe Dirce, que vendia umas ervas na carrocinha lá no Largo. Eu tinha medo dela e não curtia muito quando ela ficava fumando o charutão e trocando uma ideia com o Dusseldorf. Pra ele não fazia diferença, né? Ele não respirava mesmo, a fumaceira do charuto nem dava nada. Segui com meus óculos escuros em direção à Avenida Rebouças. Eu ia ficar de tocaia em frente ao açougue esperando os caras trazerem as carnes. O caminhão passava cedinho, no começo do dia. Pedi um conhaque pro dono do bar e esperei.
Foram uns três conhaques até ela aparecer. Não sei se era emo, gótica ou punk. Era uma dessas branquelas que curtem trepar com defunto em cemitério. Mas era linda. Cabelo azul, bocona carnuda pintada de preto, sombra no olho, peitão apertado num tomara que caia, micro saia mostrando as coxonas brancas e cortunão com salto. Fiquei duro na hora. Pensei: “Putz, magrelo, não vai esquecer os porcos do sanguessuga”, mas aí, a minha seca falou mais alto. Meses sem dar uma trepada. Conhacão na cabeça. Sabe como é? Foda-se.
_E ai, gatinha, ta bebendo o que?
_Rabo de galo, to sem grana.
_Oh, irmão, pega pra gatinha o que ela quiser.
_Tem vinho ai? _ ela falou com seu jeito blasé.
_Vinho pra gatinha, irmão.
_ Você usa sempre óculos escuros de noite?
_Eu uso, e você usa sempre batom preto?
_Sim.
_Hum... Você é emo?
_Posso quebrar essa garrafa na sua cabeça?
_OK, hum, você gosta de vampiros?
_Você não tem cara de ser jogador de RPG...
_RPG?
_Esquece...
_Hum, bom... E se eu dissesse que conheço um vampiro?
_Hum, bom... Eu diria que você é louco.
_Bom, ele se chama Dusseldorf e vai me dar um pouco do seu sangue vampiresco pra eu beber, se eu levar dois porcos frescos pra ele.
_Dusseldorf? Como no filme? Gostei da sua criatividade... Seus óculos são Ray-Ban?
_ É, são... Porque você não toma mais um vinho, me ajuda a pegar duas carcaças de porco e depois vai comigo pra casa do “mestre” pra ouvirmos um Schoenberg?
_Carcaça de porco, vinho e expressionismo alemão? Cara, você é uma das figuras mais engraçadas que eu já conheci... Só espero que esse teu mestre do RPG ai não queira me sacrificar em algum ritual maluco.
“Quem vai te devorar, gostosa, sou eu”.
***
Tive que pagar quase uma garrafa de vinho pra emo gostosa resolver ir comigo atrás das carcaças frescas dos porquinhos do governador José Serra gripado. Sabe? Eu sempre me sinto vivo quando estou bêbado. É o único momento em que eu realmente acredito que as coisas vão dar certo. Nem gripe, nem vampiro, nem Aids, nem fome, nem bala, nem político ladrão, vão me derrubar. To me sentindo corajoso pacas. E hoje essa branquinha do cabelo azul vai sentir meu foguete aterrissando no meio das pernas dela. Pode crer, olha lá os malucos deixando as carnes no açougue. Porra, tudo que eu queria era poder pegar os porcos sem ninguém perceber, mas não vai ter jeito. O açougue vai abrir já-já.
_Passa os porcos pra mim!
_Abaixa a arma rapaz!
_Abaixo o caralho! Vou levar duas carcaças de porco agora. Deixa eu ver se ta fresco.
Dei uma mordidona no porcão e a emozinha começou a vomitar e gritar que “aquilo era nojentoe ela ia correndo pra casa”. A vadia nem me avisou que um dos caras do matadouro estava chegando atrás de mim com um pedação de carne e deu com tudo na minha cabeça. Foda-se.

Na real, foda-me.


***
Na cadeia as coisas até que estão sussa. Ninguém quer chegar perto de mim porque acham que eu sou louco. Digo que meu mestre vampiro vai aparecer a qualquer hora pra me salvar, mas a verdade é que às vezes acho que ele inventou toda essa história só pra se livrar de mim.

-Leia outros contos

10.8.09

De como me tornei serviçal de um vampiro em tempos de Gripe Suína - parte 2

- Leia a primeira parte desse conto esquizofrênico



Putz, to com um pelo encravado na bunda que ta chato. Olha só, o velhote deixou a porta aberta. Há, há, há, que otário. Uma coçadinha na cabeça. Que eu vou fazer primeiro? Ah, pode crer, ver o que tem na geladeira.
Nossa, mas essa casa parece um museu. Vários quadros antigos, mobília de madeira, isso deve ser muito das antigas. Pô, e deve valer uma nota. Deixa eu sentar aqui nessa cadeirona. Pô, foda. E uns livros em várias línguas. Muito louca a sala. Onde será que é a cozinha? Quadro, quadro, quadro, espada. Espada?! Caraca! Essa eu vou levar pra casa. Igual daquele filme “Coração Valente”. Ah, e olha a sala de TV! TV de plasma. Mano, eu vou conversar com os caras do movimento pra roubar esse tiozinho. Não, eu não vou roubar nada, mas sei lá, fazer uma preza com os caras, às vezes eu descolo um troco nessas. Ah, e tchan tchan tchan tchan: a geladeira está aqui. Mano, tomara que o cara tenha bacon. Tô na instiga pra comer um pouquinho.
_Mas que porra é essa?! Só tem carne e suco de tomate na casa desse velho?
Putz, alguém mexeu na porta, acho que vou...
_Se esconder? Não dá mais tempo, amigo...
-Caraca, como você chegou aqui? Larga o meu pescoço, velho maldito, eu só estava olhando, não ia roubar nada, eu juro.
-Ah, é? E o que você estava fazendo na frente da minha geladeira? Calma, Cérbero, pare de latir.
-Meu, deixa esse cachorro longe de mim, pelo amor de Deus. Se esse bicho me morde ele arranca uma perna.
-Você deveria temer mais o que eu posso fazer do que as mordidas de Cérbero.
_Ah, é? Que você vai fazer? Comer minha bunda?
Naquela hora, não sei como, mas o velho me jogou longe. Me arrebentei todo no chão e ele foi metendo bicas em mim, com aquele cachorro gigante latindo, me derrubando escada abaixo rumo ao porão. O lugar tinha um cheiro esquisito, mistura de açougue com mofo, umas teias de aranhas escrotonas e parecia que não era limpo há um bom tempo. Tentei me levantar, cuspindo sangue, mas meu corpo se paralisou quando vi em minha volta um monte de corpos pendurados em ganchos. Não sei se eram homens, ou bichos, talvez os porquinhos do governador José Serra. Travei. Cocei a carequinha pra lembrar o que ia fazer, mas o velho e o cachorro não me deram folga. Num salto ele estava em cima de mim, eu com as costas no chão, ele com os joelhos no meu ombro. “Me fudi”, pensei, “esse velho veado vai me currar e depois pendurar num desses ganchos”. Mas comecei a sacar a fria que eu tinha me metido de verdade, quando olhei pra cara dele. Não era humano. Era bestial. Presas afiadas escapavam de seus caninos, seus olhos estavam vermelhos, injetados de sangue, seu hálito exalava morte, suas mãos eram garras de um predador pronto para matar.
_ Satanás _ gritei tentando fazer uma cruz com os dedos das mãos _ que demônio é você?! Um vampiro.
_Ha, há, há, seu mortal imbecil, só agora você percebeu aonde se meteu? Confesso que esse seu porte físico de esqueleto nunca me atraiu, mas agora que você mexeu na minha geladeira e descobriu meu segredo, não vou ter alternativa...
_CARACA, seu Drácula! Me dá um autógrafo, pelamordedeus! Esse é meu último pedido.
-Imbecil, pra que você precisaria de um autógrafo se vai morrer?
_Sei lá, eu ia chegar no céu com moral. Tipo, “saca só São Pedro, tenho um autógrafo do conde Drácula”.
_Tolo, a morte não é como imagina sua religião. E eu não sou Drácula. Sou um vampiro menor, atolado nessa decadência brasileira.
_Pô, eu sempre gostei de vampiros. E na verdade eu não tenho religião não, mano. Digo... Senhor vampiro. Pô, ser morto por um vampiro vai ser style, mas você não precisa de um ajudante, não? Nos filmes de terror tem sempre um cara feio que fica tomando conta do caixão durante o dia. Feio eu já sou, só falta...
_Um servo? Sim, talvez um servo fosse útil para mim. Você seria meu carniçal, eu poderia te dar algumas gotas do meu sangue, pra você experimentar um aperitivo do meu poder imortal. Mas não sei, você é tão sujo e asqueroso.
Confesso que ser chamado de sujo e asqueroso por um vampiro não era a coisa mais irada que poderia me acontecer. Na verdade era um lixo, mas minha auto-estima era que nem o clima no Pólo Sul, nunca saía dos valores negativos. E nesse momento o velhote sanguessuga já não estava mais andando sobre mim e sim, dando voltas pelo porão, observado pelo fiel Cérbero.
_ Olhe, magricela, eu realmente preciso de um ajudante. Mas vou ter que testá-lo. E, entenda, sua vida humana terá acabado se você se juntar a mim. Você estará vendendo sua alma a Lúcifer por um preço barato.
_Doutor, minha alma não vale muito mesmo. E eu sempre quis que alguma coisa legal acontecesse na minha vida. Isso é a coisa mais empolgante que podia me acontecer, saca? Trabalhar pra um vampiro! Eu sempre soube que ia ser alguma coisa na vida e, como eu já disse, eu não curto religiões e sempre me amarrei em vampiros. Tá, eu não gosto muito de sangue, mas quando você for sugar alguma donzela virgem eu posso olhar pro lado.
_Donzelas virgens não são tão fáceis de encontrar hoje em dia...
_Por isso que você ta sempre acompanhado das minas do “Jacksons’s Girls”, né? Tô, ligado, eu sempre vejo o movimento das primas aqui na sua casa.
_Eu pago bem para sugar o sangue delas.
_E você não as mata depois?
_Não, eu sou quase vegetariano. Está vendo essas carcaças aqui? São porcos...
_E você não tem medo da tal gripe suína?
_Imbecil! Vampiros não tem sistema respiratório, vampiros não pegam gripe. Vampiros estão mortos. E a gripe suína não é transmitida por porcos, seu idiota!
_Putz, é mesmo, que vacilo. Bom, mas acho melhor a gente acabar com essa discussão que daqui a pouco vai amanhecer. Vai pro seu caixão que eu fico de guarda aqui.
_Você acha que eu confiaria tão inocentemente, num humano desprezível que veio saquear minha casa.
_Pô, cara, se não confia, então, me hipnotiza, me suga, me sodomiza. Sei lá, o que vocês vampiros velhos gostam de fazer. Eu já disse, estou disposto a vender minha alma, bem baratinho pra você, em troca de um trabalho, um lugar pra dormir e umas gotinhas desse seu suco de sangue mágico. É tipo Viagra isso? Tipo maconha, tipo o quê?
_Meu caro, isso lhe fará ter as mulheres mais belas e mesmo que você quisesse as mais horríveis elas pareceriam as mais belas pra você.
_Pô, mas isso é tipo cachaça, então...
_Chega de imbecilidades. Sua alma não terá salvação. Que geração perdida. Goethe nunca teria escrito “Fausto” se conhecesse você.
_Fausto Silva?
_Esqueça, imbecil. Você começa a trabalhar hoje. Um ser tão tosco só poder ser um servo obediente e fiel.

Continua..

-Pô, conto legal, quero ler mais!
-Me amarro em "True Blood" e outras histórias de vampiro
-Prefiro ler coisas curtas

3.8.09

De como me tornei serviçal de um vampiro em tempos de Gripe Suína - Parte 1

Punk Brega aproveita o hype em cima de vampiros e epidemias para lançar mais um conto, que será publicado semanalmente às segundas-feiras.

-Sim, eu já fiz um conto sacaneando o Paulo Coelho


Era uma descida longa até minha casa. Ficava no largo, depois das obras do Metrô. Um sobrado. Eu morava em cima, embaixo tinha uma loja de armas e munições, na frente um cabeleireiro e uma loja de pesca. Tinha uma doença nova na cidade, uma gripe. "Gripe Suína" chamaram, parece que o governador José Serra disse que você só pegava de porquinhos. A gente não podia “passar a mão nos porquinhos, nem beijar os porquinhos”. Ok, governador José Serra, o Dumba nunca beijou um porquinho e agora estava na fila do hospital municipal de Diadema, com caganeira, dores no peito e febre alta.
Esses políticos são uns imbecis mesmo, não sei por que tem gente que ainda vota. Meu título de eleitor é lá de Luziânia a cidade onde eu nasci. Não conhece? Foda-se. Ninguém conhece aquela porra, só meu pai, um inútil total, que achou que íamos ter uma vida melhor lá. Achou, né? Ele é que encontrou uma vida melhor lá: uma amazonense bunduda, que tinha uma peixaria. Tiveram um caso por 3 anos até mamãe colocar ele pra fora. Ele foi. E nunca mais voltou se mandou pra Amazonas e pau na minha bunda magra. Tive que ficar com minha mãe e minha irmã, Katiúscia. Mas não quero que você tenha pena de mim, ok? Essa história não é pior que as outras. Tem gente que nasce com HIV e dá entrevista rindo na tv. Tem família inteira chacinada e o filho sobrevivente vira ativista de ONG. Eu não virei ativista, nem apareci na tv. Por enquanto. Mas eu era o melhor aluno do colégio estadual "Paulo Maluf", gostava de português e história. Acho bonito quem fala o português direitinho, sem muita gíria, tipo o professor Pasquale lá.
***
_Fala, Magrão, firmeza?
Sou magro. Tenho 1,79 de altura e peso 60kg. Sempre fui assim. Gosto de comer, mas às vezes não dá tempo. Gosto de trabalhar mais ou menos. É bom ter grana pra gastar, é ruim ficar perdendo tempo com trampo. Jogo na Mega-Sena. Trocaria uns dois anos de vida por uns 200.000 reais, fácil. Viver sem ter dinheiro ou ter dinheiro e viver pouco? Prefiro a segunda opção. Mas não tenho a mínima vocação pra bandido, trambiqueiro ou coisa que o valha. Não gosto de sangue.
Chego no sobrado. Ta garoando em São Paulo. Não é novidade. Terra da garoa é poético só pra quem está dentro do carro ou debaixo do guarda-chuva. Podia ter nascido carioca.
-Boa noite, Gusmão
-Boa noite, Fino.
-Vendeu muita arma, hoje?
-Vendi nada, depois dessa lei de desarmamento ta foda, né? Quase ninguém mais tem porte, aí nego prefere comprar no paralelo.
-Pode crer, fora que é mais barato, né?
-Total. Cidadão que quer se defender tem que desembolsar uma pusta fábula.
-Pode crer, vou subir. Boa noite, Gusmão.
-Boa noite, Fininho.
Fininho o escambau! Deixa ele ver meu fininho aqui. Ninguém me chama pelo nome. Mas pelo menos não me chamam mais de Cazuza igual na escola. Os caras ficavam me tirando de aidético e eu, magrelo, tinha que ouvir pra não apanhar. Bando de vacilão. Bom, chegar em casa agora ligar a TV e fazer um rango. To com vontade de ovo frito molinho com arroz. Pô, podia ter um bacon pra fazer que nem café da manhã gringo. Cê ta vendo? Eu não quero muita coisa. Um pouco de bacon já ia me deixar felizão. Coço a careca enquanto penso no que fazer. É gostoso. Às vezes esqueço o que estava fazendo e dou uma coçadinha na careca pra lembrar. Um “agradinho pro cérebro”. É engraçado? Eu sou um cara engraçado. É esquisito? Tá, eu também sou um cara esquisito.
Massa, ta passando filme de vampiro na televisão. Eu curto pra caralho vampiro. Pô, deve ser louco só comer sangue, as minas pagando pau, viver vários anos. E olha só os vampiros: Brad Pitt e Tom Cruise. Será que eu ia ficar parecendo o Brad Pitt se fosse vampiro? Um Brad Pitt com dois dentões. Pô, aí eu saía da seca. Faz uns seis meses que não dou uma. Acho que desde a Tat Boca de Caçapa. Há, que boquinha! Melhor boquete da Zona Sul. O Dumba que me apresentou. Chupou ele também. Aliás, chupou a galera toda. Foda-se. Será que eu ligo pro Dumba? Coitado, com a gripe do porquinho... Será que ele ta se cagando na fila? Nossa, mó vergonha deve ser. Eu colocava uma fralda, eu acho. Mas não ia caber, né? Sei lá, esse ovo ta cheiroso. Vou rangar e depois fumar um Hollywood na janela.

Ilustração: Sabrina Barrios

Eu curto essa vista, saca? O largo vazio de noite. De dentro de casa até que a garoa é bonitinha. Estrela não dá pra ver aqui. Mas, também, já vi bastante em Luziânia e estrela é tudo igual, parece uma árvore de natal gigante. Eu gosto de Natal. Mas não por causa do Jesus. Por causa das propagandas da Coca-Cola, saca? Dos ursinhos brancos, que tinha, lembra? Porra, era mó legal. O clima do natal é massa, né? As lojas ficam abertas até tarde, tem comida boa, mas de Jesus eu não gosto muito. Esse lance de religião é um saco, ta ligado? Minha mãe é crente. Putz, ela não queria que a gente trepasse, que eu fumasse, que bebesse. Nossa, mano, um pé no saco. Minha irmã é meio crente também, mas ela pega uns caras. Tô ligado. Assim, não que ela seja safadona, saca? Estilo cachorrona, Mulher Melancia, essas porras. Ela é sussa até, mas namora uns caras ai. Bom, eu acho religião meio que coisa de ignorante. O professor de história descia a lenha em religião, inquisição, alcorão, essas coisas. Ele era um cara inteligente, saca? Tipo filósofo, barbudo, óculos. Pô, eu curtia. E tive um amigo também. O Igor. Mano, aquele cara era do mal, do mal. Tipo vampirão, pele pálida, só falava de capeta, bíblia negra, fez pacto de São Cipriano, mó sacrilégio. E o cara era cabeça, hein? Putz, lia altos livros, “Os Divina Comédias”, “Diário de um Mago”, “Brumas de Avalon”, o cara era foda. Por isso que eu já fico esperto com esse lance de religião.
Olha ai, o vizinho estranhão saindo de casa. Coroa bizarro, não fala com ninguém. Sai pra dar rolê com o rotweiller de noite, recebe umas putas na madruga, que eu to ligado, mas não cumprimenta ninguém, quase não sai. E tem grana. Pô, e o mané não fecha a casa com chave. Sobradinho velho, no meio das lojas. Só um doido desse pra ter grana e morar aqui no largo. Se bem que com o metrô sendo construído vai valorizar. Certeza. Ele deve estar apostando nisso pra fazer mais grana. Rico é tudo esperto. Quer saber, vou dar uma entrada na casa dele. Não tenho nada pra fazer. E ele sempre demora uma meia-hora pra voltar. Como diria eu mesmo: Foda-se.

Continua...

25.3.09

O Ghost Writter Gostava de Goonies

Gostava de unhas vermelhas em pés pequenos
Gostava de cerveja gelada em boteco sujo
Gostava de falar sacanagem nos ouvido tímidos
Gostava de dançar quando estava sozinho em casa
Gostava de comer sorvete depois do trabalho
Gostava de riffs sujos de guitarras limpas
Gostava do seu iPod, mas ainda escutava vinis
Gostava de assistir programas evangélicos na madrugada
Gostava do cheiros cheiros da chuva e dos bons fumos
Gostava dos Beatles, mas preferia os Stones
Gostava do Cristo, mas não gostava da crença

E gostava de contos curtos

5.1.09

Minhas musas são pé sujo - Conto

-Tava procurando mulher pelada? Clica aqui, então

Pra quem convive comigo isso não é novidade nenhuma, todos sabem que eu tenho uma quedinha por minas hippies. Hippies, punks, junkies, garotas problemas e suicidas. Tenho fascínio por pessoas que não dão valor a vida. Ta ai um mistério que não consigo solucionar, mas dane-se, isso é outra história.
***
Eu estava no Fórum Social Mundial em Porto Alegre, capital mundial das “pé-sujo” e fazia um solão da porra. Tava com diarréia, desidratação e gengivite. Ia ao banheiro de cinco em cinco minutos, minha boca mais seca que múmia egípcia e a água da cidade contaminada... Os ambulantes mercenários vendiam garrafinhas d’água por R$1,50 e cerveja ruim por R$ 2,00 reais a lata. Um roubo! Tudo em nome do “anti-corporativismo”, hipócritas! Para não beber cerveja de uma grande empresa eu era super-explorado por uma fabriqueta gaúcha de mijo e por aqueles vendedores estelionatários. Tinha pouca grana no bolso e isso me impedia de beber tanto quanto eu queria. Uma coisa que me irrita é passar sede, pior que fome! Resolvi só tomar pinga, o que não me ajudava muito. Acordava às nove horas da manhã com um sol desgraçado me dando bom dia. Eu dizia “Bom dia seu grande filho da puta, obrigado por queimar meu cérebro, ter um câncer de pele, vai facilitar muito minha velhice”. A temperatura dentro das barracas de plástico, nas quais estávamos acampados era insuportável. Me sentia um sem-terra, um guerrilheiro, um desabrigado por desgraça natural como o Tsunami. Isso vinha bem a calhar com a temática esquerdista do Fórum. Talvez tudo que eles quisessem era nos proporcionar um workshop de como é a vida das classes exploradas. Ta certo, meus queridos, eu cresci numa quebrada de verdade e na minha rua tinha uma boca de fumo, vão dar palestra de realidade para os gringos que tão a fim de fazer um turismo barato aqui no PATROPI!
Porra! Meu intestino tava avisando: lá vem merda, garotão! Saí correndo como um louco até o banheiro mais próximo. Eu tinha três opções reais: os banheiros do parque municipal onde estávamos acampados, onde ficavam chuveiros, mictórios e privadas, e que se encontrava num estado miserável. Os banheiros químicos, que eram cabines de plástico, com uma espécie de privadinha, na qual não se encontrava descarga, a merda ficava ali olhando pra gente e boiando, à vontade. A última opção era o shopping center que ficava uns 15 minutos de caminhada, o que não estava nas minhas possibilidades. Ou então eu podia cagar ali no meio do chão, o que não causaria espanto a incrível aglomeração de hippies e anarco-punks sujos, que se juntava no local. Decidi usar o banheiro químico: forrei a parte da frente para não raspar o pinto na imundice e morri por cinco minutos. Minha alma saiu do corpo. Voltei a mim, me juntei aos caras.
Estávamos cobrindo o Fórum para um coletivo de comunicação. Éramos todos jovens recém formados na infame “comunicação social”: relações públicas, rádio e tevê e jornalismo. Ninguém tinha conseguido um emprego de verdade em uma grande rádio ou jornal impresso e então unimos nossas forçar em nome da justiça social e resolvemos fazer as coisas com as próprias mãos. Tinha uma porrada de minas lindas, com sandalinhas de couro, saias indianas e colares artesanais, mas eu não podia perder meu tempo com elas, já que nossa querida “líder”, Marina, era uma workaholic do inferno e não nos permitia fazer outra coisa a não ser filmar, filmar e filmar.
O lance era o seguinte: estávamos fazendo um documentário sobre ativismo social em parceria com uma ONG gringa e se tudo desse certo poderíamos conseguir uma verbinha para nosso coletivo. Todo mundo tava sem grana e vivendo à custa dos pais, que não queriam mais bancar ninguém. Tava todo mundo sem um puto nem pra cerveja e economizando até nas refeições. O cara que tava na pior situação era o Hebert, mulato, formado em rádio e tv, vindo da periferia de São Paulo que tinha conseguido se formar graças à “bolsas-esmola” do estado. O nego tinha talento nato pro teatro, mas tava numa pindaíba que dava dó agora que a verba tinha sido cortada. Se ele não arrumasse um trampo logo, ia acabar tendo que voltar para casa e fazer serviço de peão. Eu não tava tão ferrado, mas minha mãe tava me pressionando feito louca. Tinha sido despedido de uma editora astrológica, onde conseguira estágio no último ano de faculdade. O lance dessa editora era horóscopo e revista pro público feminino. Revista barata mesmo, pras classes C e D, exploração da ignorância alheia. Sacaneavam as meninas pobres que dava dó. E a gente copiava tudo da internet, não tinha que fazer nada: só copiar e colar. E aquelas garotas punham a vida ali:
“Cara Revista Melhor Amiga, engravidei e o pai da criança fugiu. Me deixou sozinha, se meus pais descobrirem me expulsam de casa. Já decidi fazer aborto, não tenho outra saída. Será que vocês poderiam me ensinar o melhor método? Já descobri algumas coisas: Chá de Erva X, enfiar um arame na vagina, tomar remédio Y(que pode matar a mãe por sinal) ou até bater na barriga. Tenho medo que possa acontecer alguma coisa comigo... O que eu faço?”
Fuja menina! Fuja que você não merece esse mundo. Um covarde bastardo que te engravidou e fugiu, pais otários que não tem diálogo com os filhos, miséria desumana que impede as pessoas de terem acesso à informação de verdade, solidão angustiante que transforma uma revista em “Melhor Amiga”. Todo mundo leu essa carta lá na redação, alguns até riram, eu queria responder, nem que fosse para falar pra ela não fazer o aborto. Mas a editora vetou: o maldito guru esotérico e dono da revista não permitia referências a aborto, drogas ou temas polêmicos nas suas revistas. Diabos! A menina ia cometer suicídio e ninguém podia falar nada? Que mundo era aquele? Recortando e colando dicas de beleza e reescrevendo milhares de vezes a mesma matéria sobre a primeira vez de uma garota sob títulos diferentes... ACORDEM! Alguém ai sabe como é a primeira vez de uma garota pobre nesse inferno chamado Brasil? Quantas garotas vão comprar velas vermelhas, lingerie nova e uma jantar especial para o namorado que amam e quantas vão estar deitadas em uma construção, trepando sem camisinha com um babaca, que insistiu a noite inteira, e quem sabe se aproveitou do seu estado etílico. Pura merda! Depois disso não demorou muito pra eu cair fora...
Por isso tudo eu estava lá em Porto Alegre gastando meu inglês tosco e o portunhol para falar com todos aqueles ativistas malucos e montar um documentário decente e sem garotas fazendo abortos com remédios tarja preta. No final das contas a gente nunca faz o que quer quando ta ganhando. Ou melhor, nunca pagam pra gente fazer o que gosta. Sua vida é uma encruzilhada em que de um lado está a realização pessoal e a pobreza e no outro a grana e a infelicidade. Eu por enquanto tava nessas de sobreviver comendo pão com mortadela à noite e bebendo Caninha 51. Não sabia até quando ia agüentar. Todos meus heróis morreram antes de ficar velhos ou se venderam... È triste pensar assim, né? Às vezes pensar dói mais que tomar um socão na cara... E olha que eu só tomei um soco na cara uma vez. Bom, estávamos lá: eu, a Marina, o Cagote com a sua namorada nipônica, o Hebert e o Mangabeira, que era um puta alcoólatra, pior que eu. O Cagote e a namorada tavam cagando mais que todo mundo junto, o cara ficava jogado no chão, perto das barracas, em cima duma lona quente, tomando soro caseiro e se lamentando:
_ Mano, deixa eu fazer um desabafo... Não faz sentido eu estar aqui, se eu tivesse bem, vai lá, mas eu to mijando pelo c*! Aqui não tem lugar pra cagar, é quente pra diabo, não tem água, onde é que eu vim parar?
_Relaxa, Cagote, a gente vai terminar essa porra rápido e ai a gente volta pra casa. Lá vai ter uma privada enorme e limpa onde você vai poder passar o dia todo evacuando relaxado. O papel-higiênico vai ser de primeira e não essa lixa que os caras põem nos banheiros públicos...
_ E a cor, mermão(meu irmão ele queria dizer)? Vai ser azulejo branco? Banheiro bom é branquinho... Pedindo pra você: "Senta. Senta e faz..."
_ Branquinho, mano, branquinho e sem tábua cagada. Você não vai mais ter que ficar forrando a privada toda vez que for sentar.
Agora a gente tava andando, fazendo uma tomada geral do Fórum. Duzentas mil pessoas, de todos continentes do mundo, dezenas de línguas, centenas de roupas, milhares de sonhos. Barracas de artesanato hippies, anarco-punks com moicanos, sem-terra com bandeiras, partidos de esquerda com panfletos. Musas com pezinhos sujos de areia, gringos vermelhos de sol. Utopias cagadas todos os dias em banheiros imundos, cortesia da excelente água gaúcha. Um hippie sujo e com dreadlocks encanou com a nossa filmagem:
_Hei, vocês não tem autorização da minha pessoa pra me filmarem.
O Mangabeira.
_Calma, cara, a gente só ta filmando o caminho.
O Cara tava louco não ouvia, devia ter fumado tanta maconha, misturada com chá de cogumelos e LSD que o cérebro tinha virado geléia.
_Ai, meu irmão, vocês vão vender essa fita ai e os caras vão copiar meu trabalho. Isso aqui é tudo idéia da minha cabeça, meus artesanatos. Minha pessoa é um artista. Não da pra ficar filmando meus trampos assim
Montuado de estátua de barro feitas por algum cara com deficiência motora, colares iguaizinhos ao de todo “hippie artista” que se encontra no mundo. Dava vontade de chutar tudo, pisar naquelas bostas e mandar o cara tomar banho. Pra não mandar tomar outra coisa...
_ Cara, na boa, a gente ta fazendo um documentário nem filmamos você.
_ Se liga meu irmão, vou chamar meus camaradas, se vocês não apagarem isso... Ta maluco, minha pessoa é esperta, ta sabendo? O negócio vai engrossar.
_Pronto a gente já apagou e tamo indo embora_ o Hebert queria encurtar a conversa.
- Cês, acha que eu não sei o que cês faz? Vão pegar esse vídeo recortar minha cabeça e me colocar peladão na internet, fazendo assim ó(simula sexo)! Que nem filme pornô...
Nessa hora a gente mal tava ouvindo o ogro, mas eu ainda sentia seu bafo fedorento na cara...
_Filho da puta – Falei.
_Mermão, só to cagando, to precisando ir no banheiro de novo, porra! Já caguei em Porto Alegre inteiro, no posto, no shopping, no restaurante, caraca!
_ Porra, Cagote! Você ta foda hein? Só fuma maconha e caga! Caga na barraca, no chão, na sua namorada...
_ Ta maluco mermão, na minha namorada não!
Senti uma pontada. Saímos correndo e chegamos a tempo no shopping... Lá o banheiro era limpinho...
***
Meu amor platônico pelas pé sujos devia ser edipiano... Minha mãe era meio hippie quando casou com meu pai... Na prática não tenho muita frescura com mulher, mas sempre me apaixono por uma gatinha alternativa. E quase nunca ajo. Fico só olhando, pensando, imaginando... Isso me rende um monte de história pra escrever... Só que troco todos contos, o prêmio Pulitzer ou o Jabuti, por uma menina com cérebro, sandalinha de couro, blusinha de alcinha e saia indiana. E uma boa bunda, porque ninguém é de ferro, né?
23/02/05.




Este conto tem alguns trechos inspirados na minha experiência real no Fórum Social Mundial de Porto Alegre, 2005. Na foto, eu, meu irmão Gabriel e Rodrigo "Pantera".

-Mais contos revolucionários e bêbados






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29.12.08

O pagador de promessas

Hoje fui até a igreja de São Judas Tadeu pagar uma promessa que minha vó fez pr'eu arrumar emprego.

É fato, sou o ateu mais cristão do século XXI.

E lá vai o poetinha, arrastando sua namorada, através de ônibus, duas baldeações de metrô e dezenas de pedintes até chegar à igreja de São Judas. Por coincidência daquelas que te deixam com a pulga atrás da orelha, hoje era dia de São Judas(28) e as ruas estavam lotadas. Uma tiazinha simpática de Guaianazes, chamada Fátima, pediu para gente acompanhá-la do metrô à igreja e nos indicou onde acender e comprar as velas e onde ficavam a velha e a nova igreja de São Judas.

Bati um papo com o santo e me desculpei pelos dois anos de atraso. No final das contas ele entendeu e me perdôou.

Voltei para casa com a alma 5kg mais leve.

Amém.

11.12.08

Um dia na vida da polícia brasileira

No almoço de domingo um policial conta com orgulho: "Chegamos lá em x(e x é um bairro pobre da Zona Leste de São Paulo)e tinha um bando daqueles moleques cheirando benzina(ou cola, ou qualquer outro solvente). Eu perguntei: tá cheirando o quê? E o moleque: to cheirando nada não. Eu disse: Não é nada? Então você vai beber essa porra. Coloquei tudo no copo e obriguei os vagabundos a beberem. O moleque morreu logo depois."



Você, como eu, ficou com vontade de vomitar ou de chorar?

18.11.08

Esperando pelo meu homem

_Nossa! Já são dez horas e o Jorge não passou aqui ainda. Hoje eu to que nem aquela música do Velvet Undeground... I´Waiting for my Man.
_Carol, essa música não é sobre amor. È sobre droga. O Lou Reed fez pro traficante dele.
_Ah...

...

_Bom, mas sei lá, o Lou Reed era meio veado, né? Às vezes ele namorava o traficante...
_É, vai saber. Coloca a roupa que seu homem deve estar chegando

7.9.08

Felicidade 1

Uma chuvinha cheirosa, umas cervejas, a respiração da pessoa que a gente gosta e uma música nostálgica. Sem grandes sacadas. Só a simplicidade das coisas boas.

5.9.08

Cinema Marginal(Era pra ser uma história de amor)

Acordou com um corpo estranho ao seu lado, ao menos, o tal corpo respirava. O "seu", enlaçado pelas mãos daquele homem. "Onde estou"? Às vezes, esquecia quem era, não tinha uma identidade completa, um milhão de fragmentos, caleidoscópio de mulher, átomos, células, sonhos... E ele ali. "Ta, é o Alex, transamos de novo, acho que ele vai se apaixonar"...

Tinha viagem marcada, levantou rápido, olhou o celular, atrasada, como sempre. Banheiro, banho, troca de células mortas, troca de pele, como uma serpente se enroscando na toalha, todas as curvas molhadas secando com o contato do pano. Seios e nádegas fartas, num corpo delicado e pequeno. Era Luisa, agora lembrava, 24 anos, formada há dois em comunicação social habilitação em salvação de almas, trabalhava numa ONG de educação popular, "Paulo Freire vai pro céu". O corpo ao seu lado já fora seu namorado, melhor amigo, irmão, pai, amante, bufão, agora trabalhava 12 horas por dia numa revista de comportamento e tentava fazer cinema à noite. Agora, era um corpo amolecido, cansado, frustrado, transformado em proletário não pela catequização comunista, mas pela realidade da vida, que colocava ferramentas, porcas e argamassa nas mãos dos poetas e os mandava construir sonhos concretos. Sonhos que o dinheiro pudesse comprar ou que pudessem caber nas páginas dos jornais e revistas. Estava escrevendo seu grande roteiro que não terminava nunca. Era a história dos dois, numa visão hermafrodita, fluxo psicológico bissexual e outras conversas intelectualóides, sem fim, como aquelas noites, que se repetiam eternas, os dois depois de umas cervejas, conversas sem sentido, acabando juntos, um dentro do outro, ele falando sem parar, os olhos dela fechando, a moça dormia, sonhava e esquecia tudo. Voltava a ser uma menina e o corpo era só dela, e o amor era só uma figurinha num álbum de dois reais. Acordava sem nem lembrar, conversavam sem pressa, com a intimidade dos casais que comemoram as bodas de ouro e, então, ele partia pra mais 12 horas de jornalismo, sem direito a ventre livre ou lei dos sexagenários. Sem saber quando voltariam a se ver. E quando os dois já quase esqueciam quem eram, se encontravam numa noite pra mais cervejas e conversas sem sentido. Ad infintum, num eterno retorno...

Comeu pão integral com requeijão e café preto. Alex tomou só café e falou do seu roteiro. Era inteligente, o rapaz, já estava com cabelos brancos e ainda não tinha ganho dinheiro suficiente pra comprar sua câmera digital. Estava todo empolgado porque tinha entrevistado o cineasta e lenda Zé do Caixão.

_ Eu vi ele de pertinho, nega, ta velhinho e com bafo de fumo e cachaça, é um gênio, um gênio, quando eu fizer meu filme ele vai ter papel garantido!

Falava rápido e enrolado. Luisa torcia pra que um dia o tal filme saísse, ela também estava dirigindo seu documentário. Era sobre as crianças de rua, a ONG tinha conseguido um incentivo do governo pra rodar a película e cadastrar as crianças em instituições de caridade. Saiu, o moço, sem saber se um dia voltaria a vê-la ou não. Ficou, a moça, sem saber se voltaria a vê-lo ou não.

Limpou a lagriminha do rosto, deu adeus aos potes de aveia, fotos e pinturas na parede, entrou no carro, ligou o som e deu ignição. VRRUUMMM! Pessoas, cachorros, pedras, lojas cheias de logotipos, luminosos, cores, VRRRUMMM! Vento no cabelo num dia qualquer do começo do século. “Paulo Freire vai pro céu”, crianças negras, mulatas, brancas encardidas, narizes sujos, cabelos desgrenhados. “Tia! Tia! Vai ter comida?” Câmera filmando: FILMA, FILMA, FILMA, FILMA, POBRE, POBRE, POBRE, POBRE.

(Rápida interferência, a história do CINEMA MARGINAL, roteiro de Alex):

Cena 2.

Panorâmica de bairro de periferia.

Cineasta _ Esse bairro chama-se Novo Brasil, de novo tem apenas os eletrodomésticos comprados em milhões de prestações, é mais uma foto do subdesenvolvimento. Não há promessas, índices ou dados de campanha que nos convençam de que o país está melhorando quando se vê a desgraça na qual se encontra o Novo Brasil. Novo Brasil é um aborto da humanidade, um sonho que podia ser mais não foi. Fodido. Uma boca de drogas há um quarteirão, crianças fumam crack à noite. Bebês choram a trilha sonora do gueto, casais brigam, choro, carros velhos, choro, carroças, choro, cocô de cachorro, choro. As pessoas parecem pedaços de cocô ambulante. E são. E no sétimo dia, Deus descansou. E descansado cagou os pobres.

Cenas de bagunça

Cena 3.

Magrão(olhando pra câmera) _ Seu moço, seu moço o que o senhor ta fazendo ai?

Cineasta _ Isso se chama cinema!

Magrão _ Cinema é de comer seu moço?

Cineasta _ Não, mas mata a fome que nem televisão.

Magrão _ A sim, to compreendendo... Vai passar na televisão? Na Grobo? Posso mandar um alô pra rapaziada?

Cineasta _ Não vai passar na Globo, não. Isso aqui não é comercial.

Magrão _ A não vai não, é? Mas porque, ceis num gosta da Grobo, não, seu moço?

Cineasta _ Isso aqui é cinema marginal. Não passa na televisão.

Magrão _ Se não passa na tv, ninguém assiste, né mesmo? Lá no meu barraco, pelo menos, né? Cê sabe, eu moro num puxadinho, atrás dos meus pais. Porque ta duro de arrumar um trampo, então eu fico lá, né? Pensando na vida, assim, como se diz? Refletindo né? Refletindo,mesmo.E acho que tudo que nóis aprende hoje é pela televisão. Esses dias mesmo eu tava vendo aquela mini-série bonita na televisão,aquela que mostra como qui os português descobriram o Brasil, um negócio complicado, né seu moço? Sangrento, mesmo.

Cineasta _ Cinema marginal só mostra realidade, é o cinema do povo. Não dá pra passar num canal vendido como a Globo.

Magrão _ Mais que qui adianta fazer cinema do povo, se ninguém vê? Assim, só to refletindo comigo mesmo, né? Porque eu não sou muito do conhecimento, né? Não tive uns estudo assim, mas di vez em quando eu gosto di pensa, de vez em quando. E acontece que não to entendendo assim: a utilidade desse cinema marginal.

(Passa casal na rua.)

Brando _ Cuidado meu bem, tem um(a) bosta na rua.

Tarsila _(desviando de Magrão que vira pra câmera e olha para os dois bravo) Ai que nojo, quase que pisei!.

Cineasta _ O amigo, o amigo!

Magrão_ Eu?

Cineasta_ É você, você não sente falta de realidade na televisão? De povo na televisão, gente que nem você?

Magrão_ Ah, gente que nem eu? Sai fora! Quero ver gente feia? Quem gosta dessas coisa é intelectual, cumunista. Eu gosto de ver aquelas casona grande, Big Brother, mulher gostosa. Você gosta de vê trubufu? Trubufu a gente encara, né? Mais fica pensando nas moça da novela, assim de olhinho fechadinho.(fecha o olho e simula sexo).

Cineasta_ Meu amigo você está alienado, você está fora da realidade, a gente precisa colocar o povo na tela. A gente precisa ter um cinema brasileiro popular, marginal!.

Magrão_ Meu amigo, eu não sou marginal não,ta entendendo? Eu to me alinhando. Eu to me alinhando, pô!

Cineasta_ Então de um grito, vai! Mostra sua casa, onde você mora. Mostra pra gente o povo, pobre, feio, doente, banguela. Mostra pra gente seu José!

Magrão _(tomando a câmera da mão do outro)Ih, vacilão, que seu José o caralho, me dá essa câmera ai. Da essa câmera que agora eu vou fazer um filme. Vou mostrar o POVO pra você(fala última frase com sorriso maldoso na boca.)

***

Luisa tem sérias crises de consciência, por ser branca num país negro e rica num país pobre. As pessoas não escolhem como nascem, e provavelmente os pobres escolheriam nascer ricos.

Segunda série do ginásio, ALEX é branco, homem, portador de cultura e preceitos éticos. Seus colegas na escola pública FAUSTO DI GIACOMO não. Renan(branco) para Eduardo(negro)

_Aposto que seu maior sonho é ser branco, né? Quem nem o Michael Jackson, todo negro deve querer ser branco...

ALEX fica inconformado é claro.

Se os pequenos meninos de rua querem ser brancos ou não, poucos sabem, eles querem comer e são levados pelo representante da prefeitura para isso. Filinto leva todas as crianças numa KOMBI branca antiga até a escola pública onde elas terão direito a um prato de comida e um saquinho de leite de soja sabor morango. È o salário recebido em troca do uso de suas imagens no filme de Luísa.

Luisa está com dor nas costas, alonga o corpo, precisa voltar a fazer capoeira, ficou parada nos últimos seis meses por causa da fisioterapia. A equipe de produção se despede, ela fica fazendo algumas anotações, ouve um barulho... Será um rato? Embaixo da mesa. È quase isso, uma garotinha mulata, de uns sete anos escondida...

_O que você está fazendo ai, menina? Não quer comer? Não ta com fome?

_To sim...

_E porque você não foi na kombi com os meninos?

_...

_Vou ligar pro Filinto!

_Não! Não, não liga pra ele não! Ele levou meu irmão ontem e eles não voltaram mais! Eu acho que ele ta fazendo alguma coisa ruim com as crianças...

_Como assim?! O Filinto? Mas ele ta na prefeitura há anos, ganhou o prêmio Betinho de Ação Social, e a beatificação por ajudar o próximo!

_Tia, eu acho que ele ta fazendo coisa, fazendo coisa com as crianças!

_Impossível! Vamos até lá, que eu vou te mostrar que ele é um doce!

-Não, tia! Vai toma no cu! Vai cagá! Fia da puta! Eu num vou não!

Saiu correndo desesperada, chorando. Luisa pensa, a coisa pode ser séria, seu faro jornalístico dispara. Sexto sentido. “I see dead people”. Pega a câmera, o carro, as boas intenções, e a esperança num mundo melhor e VRUMMM! Segue pra escola estadual “Francisco de Assis França”, ouve um disco do Tom Zé, e pensa em Alex. “Será que eu to fazendo certo, e se ele for o cara da minha vida?” Casais, pedras, cachorros, gatos, lojas, e mendigos. Toda rua é igual numa grande cidade do século XXI.

Luzes apagadas na escola estadual. Não há mais aula, é uma hora da tarde. (Ou são uma hora da tarde, não há uma gramática ao meu lado que eu possa consultar.) Luisa sente cheiro de morte no ar. Arrepio correndo o corpo, sensação ruim no peito, medo. Pula o muro, alongando o corpo inteiro como uma gata. Cai no chão, pés empoeirados dentro da sandália, olha pros lados. Barulho vindo da cozinha, fogão industrial, merenda pra milhares de alunos, macarrão, arroz com coloral, tudo que a nutricionista elaborou era caro de mais pra ser comprado. “Vai filhinho, chupa, chupa”.

Abre a porta da cozinha, tudo vazio, só um pouco de carne cozinhando. “Vai, deixa eu colocar, só um pouquinho”. Sussurros, vindos de baixo. Corre os olhos pela cozinha, abre o armário de baixo, panelas e... tchan tchan tchan tchan um fundo falso. Desce até o final. “Isso, assim, ta vendo como é gostoso? Agora você vai sentir um geladinho...” Um adulto ri, uma criança chora, um adulto ri, uma criança chora. Há sempre um nenê chorando numa vizinhança pobre. Há sempre um grito de dor, e hoje um grito de morte. Corredor escuro, cheiro estranho, acende o isqueiro, MEU DEUS!

(RACHA PEITO.

Racha peito essa dor

Essa desilusão, desengano.

A morte, El Salvador

Seres humanos são seres insanos,

Com uma arma ou uma flor.

Aqui brincamos um ano,

Agora só um grito, uma cor.

Racha peito, explode a dor

Morte aqui, El Salvador.

O sofrimento humano

É o único sentimento universal.

(O resto é sexo).

Seres humanos são seres insanos

Racha peito, explode a dor

Com uma arma ou uma flor

Racha peito, explode a dor.

O sangue tem sempre a mesma cor.

Racha peito, esta dor

Essa desilusão, desengano.

A morte aqui ou El Salvador.

Seres humanos são sempre insanos

O Sofrimento humano

É a única verdade universal.

(O resto se releva.)

Como eu dizia, ou melhor, como gritava nossa heroína: MEU dEUS! Crianças mortas! Todas as crianças de rua, todo futuro abortado do Brasil, em freezers gigantes, congeladas, suas expressões de dor eternizadas! São sonhos. Eram pra ser, mas não foram. Um adulto ri, uma criança chora, ainda há tempo de impedir o bastardo, deitado numa sala, pequena, observado por mais dois garotinhos em choque, seu corpo treme sobre o corpo de um garoto. Toda civilização moderna pode ir pro inferno, todos os sonhos, tudo que pensou hoje de manhã é supérfluo, o mundo é horrível, não, é? O MUNDO É HORRÍVEL! A câmera registra tudo, um filme de horror, “Filinto gritou como um filha da puta!” E as crianças riram, riram, gostoso. “Mata ele tia, mata a bichinha” “Corta fora tia, corta o cuzão”. BUZZCOCKS gritando na caixa de som “Não vai haver amor nesse mundo nunca mais”. Suas últimas palavras.

“Querida, eles não são nada, ninguém se importa, eu estou pensando na ciência, você sabe quantas vidas um rim desses pode salvar? Você sabe quantas pessoas “de bem” morrem na fila de um transplante? Você não sabe nada, menina rica, você não sabe nada! Essas crianças não deviam ter nascido! Elas não existem! Não existe infância nos desertos de pedra das metrópoles do terceiro mundo! È tudo propaganda de refrigerante, é tudo propaganda de refrigerante”.

Existe alegria nas propagandas de margarina. Alex não consegue trabalhar em ONG’s durante uma vida por isso se prostitui numa revista de comportamento 12 horas por dia. É muito bukowiski e pouco guevara. Seus pais já passaram a vida fazendo isso e acabaram num bairro igual ao de todas as crianças mortas na geladeira da história. O garoto não consegue e nem se conforma, ele só chora e chora, letras, versos e um poema no final desse conto. Já Luisa...

Luisa morreu aquele dia, quem saiu daquela escola era uma mulher completamente nova, desconhecida, agora mãe de três garotos:um negro, um branco e um roxo. Vomitou um bocadinho. E andou até a linha do horizonte. N’algum lugar do mundo....

N’ algum lugar do mundo.

N’ algum lugar do mundo...

Há uma alma queimando,

Há um sonho murchando,

Há um feto chorando.

Em algum lugar do mundo,

Um ponto, sim um ponto,

Um ponto que poderia ser, mas não foi.

Um ponto pode ser muita coisa:

Uma flor, um coração, uma criança

Ou um alvo em potencial.

Naquele jardim de esperanças,

A última foi queimada,

A minha foi roubada. A história acabou.

31/12/06.

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