30.3.10

A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen, Eugen Herrigel ****

A arte genuína não conhece nem fim nem intenção, Kenzo Awa


O livro “A arte cavalheiresca do arqueiro zen”, do filósofo alemão Eugen Herrigel(1884-1955), tem o mérito de ser um dos principais responsáveis por introduzir e popularizar o pensamento zen budista no ocidente. Grande parte desse mérito se deve ao fato do livro ser curtíssimo (a edição da editora Pensamento tem 91 páginas) e escrito numa linguagem simples, que traduz os pensamentos do zen para leitores comuns.

Herriegl passou alguns anos(1924-1929) no Japão, ensinando filosofia na Tohoku Imperial University. Interessado no pensamento oriental, ele começou a estudar o kyudo (arte do arco e flecha) com o mestre Kenzô Awa (1880-1939), enquanto sua mulher estudava a arte dos arranjos florais.

Posteriormente, Herrigel relacionaria a arte do arqueirismo com o pensamento zen, produzindo uma série de estudos que dariam origem ao livro. A forma de relacionar um trabalho manual com o desenvolvimento espiritual (“... a obra interior que ele deve realizar é muito mais importante que as obras exteriores”) dialoga diretamente com livros posteriores que se inspirariam na obra de Herriegel, como o clássico “Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas” de Robert M. Pirsig, no qual o autor ensina que a escalada da montanha é muito mais importante que chegar ao cume.

Herrigel

Muita viagem? Um trecho que resume bem a ideia do livro é essa fala do mestre Kenzo sobre o arqueirismo: “(...) não se deve envergonhar pelos tiros errados. Da mesma maneira, não deve felicitar-se pelos que se realizam plenamente. O senhor precisa libertar-se desse flutuar entre o prazer e o desprazer. Precisa aprender a sobrepor-se a ele com uma descontraída imparcialidade, alegrando-se como se outra pessoa tivesse feito aqueles disparos. Isso também tem que ser praticado incansavelmente, pois o senhor não imagina a importância que tem.”

Atingir o equilíbrio, evitar a busca pelo prazer ou tristeza pela falha, preocupar-se mais com o ato do que com suas conseqüências. Seguir os instintos. “Comer quando se tem vontade de comer e dormir quando se tem vontade de dormir”. O pensamento zen oriental, apresentado por Herrigel, pouco tem a ver com nossa forma pós-moderna e ocidental de viver. Mas é uma boa oportunidade de enxergar que toda regra é burra e que existem formas muito velhas de pensar, que parecem mais modernas que o hype que engolimos diariamente como a hóstia da nossa (não)religião descolada.



Veja também:
-Resenha de "Zen e A Arte da Manutenção de Motocicletas"
-Zen e "A Love Supreme"
-Todas as resenhas de livros

28.3.10

O cântico dos bantos

Billie Holiday


Sax sacana serpenteia sedutoramente simples seus sons singulares
Retumbam repiques retos rasgando repentinamente rotinas
Lábios negros fazem amor com música azul
Sensuais são os timbres que movem minha carne
Cordéis invisíveis nos põe para dançar

"Que foi, querida? Não gosta do ritmo"?
"Estranho, parecem lamentações."
"Como?"
"Pare a música! São lamúrias de dor vindas dos campos de algodão. São gritos de morte!"
"Bobinha, são canções de redenção..."

Um coro veste de branco o ébano.
Sagrada fumaça, chapéus, expressão máxima da cultura estadunidense

Tudo concentrado num arquivo de alguns mega.
Baixado ontem numa noite sem trégua.

Frico já escreveu um punhado de poesias nesse blog. Leia o resto aqui e deixe seu comentário aí embaixo.

John Coltrane


Leia também:
-O Evangelho segundo Louis Amstrong
-Ulysses fugiu da Grécia atrás das garotas negras do Coltrane
-6 discos para começar a ouvir jazz

27.3.10

Punk Brega quer trocar de roupa. Que você acha do nosso layout?


Punk Brega quer trocar de roupa. Que você acha do nosso layout?
Tá muito 2002

4 (13%)

Tá muito rosinha minha canoa

2 (6%)

O design é lindo, não muda, please!

3 (10%)

Tem que ser mais punk

12 (40%)

Tem que ser mais brega

1 (3%)

Deixa igual, mas coloca um topo maneiríssimo

8 (26%)


Votos até o momento: 30
Enquete encerrada

26.3.10

6 discos para começar a ouvir jazz

Essa lista não pretende ser um top 6 melhores discos de jazz.

Eu não sou "entendido" em jazz.

Fui um adolescente punk e ,em geral, gosto de música redonda, feliz e cantarolável. Na verdade, quando era moleque eu odiava jazz. Era o som que meu pai colocava de manhã quando acordávamos para ir à escola. Eram os discos que ele deixava sempre rodando no carro. Não tinham distorção, refrões e muitas vezes nem vocal.

Mas quando vim pra São Paulo, o amigo Gabriel Gianordoli me apresentou alguns clássicos do jazz que me fizeram gostar da coisa. "Love Supreme", "Kind of Blue", "Time Out" e "She was to good to me" entram nessa conta. "Porgy and Bess" é um disco cantarolável e reúne dois gigantes que quem quer começar a se aventurar no estilo deve conhecer. Bom, era pra ser um top 5, mas resolvi incluir o primeiro solo do Jaco aqui. Deste eu gostei quando ainda era "roqueiro". O cara é pro baixo o que o Hendrix é pra guitarra, então pode agradar quem tem resistência a pianos e raízes blues.

Espero que ajude quem quer conhecer este estilo considerado "chato" e "difícil". Você também pode usar os nomes de discos para parecer cool numa conversa. You choose.


"A Love Supreme" - John Coltrane(1965)


"A Love Supreme" conseguiu ser o único disco de jazz a se tornar meu álbum favorito por um certo tempo. A viagem espiritual do saxofonista Coltrane com seu quarteto genial se resume a 4 faixas: "Acknowledgement"(com uma linha de baixo hipnótica e o coro repetindo "a love supreme" no final), "Resolution", "Pursuance" e "Psalm", essa última uma versão musicada de uma oração registrada por Coltrane no encarte do álbum. Acho que é o som mais espiritual que fizeram, desde a invenção do mantra "om".

"Kind Of Blue" - Miles Davis(1959)
Miles Davis é o maior adversário de Louis Amstrong na briga pelo trono de rei do jazz. O trompetista passeou por diversos estilos, lançou meia dúzia de discos essenciais e se tornou unanimidade com "Kind of Blue", álbum que tem até um livro inteiro dedicado só pra ele. Disco de platina quádrupla, sempre liderando listas de melhores do jazz, a bolacha ficou em 12º lugar na lista pop de "500 melhores álbuns da história" da revista Rolling Stone . A influência da bolachinha modal escapa dos terrenos do jazz e se espalha por rock e música clássica.



"She Was To Good To Me" - Chet Baker(1974)

Um trompete tocando a nota certa a cada segundo, compondo melodias assobiáveis mesmo nos improvisos. Algumas canções orquestradas, algumas cantadas numa voz bossanovista. Um dos caras mais cool do jazz no comando do som. Ouça só o começo com "Autumn Leaves" e "She Was to Good to Me" e tente não se apaixonar.

"Time Out" - The Dave Brubeck Quartet(1959)
Um dos álbums de jazz mais vendidos da história, "Times Out" quebra o ritmo do jazz brincando com ritmos turcos, valsas e swing. Bruebeck era da turma do jazz branco da costa oeste - assim como Chet Baker - e sua composições eram mais aceitas que o bebop ácido da costa leste. "Take Five"(que era pra ser só um solo de bateria de Joe Morello) entrou nas paradas da Billboard e é citado como influência até de bandas de rock como "Os Mutantes".

"Porgy and Bess"
- Louis Amstrong e Ella Fitzgerald(1957)
"Porgy and Bess" é a versão jazz mais famosa da ópera de Geroge Gershwin e reúne dois dos maiores nomes do estilo: o carismático e genial Louis Amstrong e a diva Ella Fitzgerald. É um bom começo para quem não tem saco para som instrumental e ainda incluí o clássico "Summertime".

"Jaco Pastorius" - Jaco Pastorius(1976)
Mesmo que não consiga a unanimidade de outros figurões dessa listinha, o primeiro disco solo de Jaco Pastorius é bem popular entre os fãs de jazz e seu som costuma agradar quem está mais acostumado com rock 'n' roll. Contando com Herbie Hancock nos teclados e Wayne Shorter no sax soprano, as 9 faixas incluem sons mais funks, uma faixa com vocais e a genialidade que levaria Jaco ao posto de maior baixista da história.

Se ainda assim você achar jazz um saco, se liga nos nossos posts de punk rock

Veja também:
-O evangelho segundo Louis Amstrong
-Lista com documentários legais sobre rock 'n' roll
-Ilustração de Charles Mingus por denisdme

25.3.10

circo - Sabrina Barrios

Comida é pasto. Bebida é água. Quinta é dia de arte.

Sabrina Barrios está empenhada em consquistar Nova York. Para celebrar o trabalho dessa designer e artista gaúcha, que tanto ajudou nosso extindo bloguinho cabeça(Clube de Ideias), decidimos republicar a obra "circo". Originalmente postada no seu flickr .

Veja também:
-O conto "A Ilha" com ilustras da Sabrina
-O trabalho do designer Mateus Valadares

23.3.10

Gal Costa - Musas com cérebro

- Musas: Ideias na cabeça e curvas no corpo
-"Sgt. Peppers" o gatilho da psicodelia mundial

Sim, não adianta fazer cara feia. Punk Brega também tem seu lado bicho-grilo e Gal Costa se encaixa em todas nossas categorias de musas. Além de se juntar a outras mulheres de atitude no "Musas com Cérebro", Gal tinha o show mais rock 'n' roll do Brasil, em 1971, quando movia seu "Fa-Tal - Gal a Todo Vapor" a amplificadores Marshall importados da Inglaterra e preenchidos pelos solos ácidos de Lenny Gordin -substituído posteriormente por Pepeu Gomes. E Gal também foi pin up por um dia. Muito antes das coroas enxutas Marina Lima e Angela Vieira, em 1985, ela - com quase quarentinha - estampou a capa da antiga revista "Status".

-Conheça a biografia de Timothy Leary o papa da psicodelia

Antes de virar diva jazzística e sucesso brega, Gal foi a musa do desbunde brasileiro. Nascida Maria da Graça Costa Penna Burgos, em Salvador, 26 de setembro de 1945, começou a carreira ao lado de Gil e Caetano. Assim como a dupla, fez a transição de influências de João Gilberto para The Beatles, que resultou no Tropicalismo. Quando Gil e Caetano estavam exilados na Europa(depois da prisão no final de 1969), foi nas mãos de Gal que ficou a responsa de ícone da contracultura tupinambá. Vinda de uma sucessão de discos clássicos, a baiana estreiou o show "Gal a Todo Vapor", com direção do poeta Wally Salomão e músicas de gente como Jards Macalé, Jorge Ben e Luiz Melodia.

Com o melhor som para rock do Brasil, a genialidade de Lenny Gordin(um dos maiores mestres das 6 cordas que passaram por essas terras),a sexy appeal da musa e composições frescas de novos nomes da MPB, o espetáculo virou parada obrigatória para todos os malucos do Brasil, especialmente os hippies do Rio. Gal era musa de homens e mulheres. Segundo a própria cantora, em declaração para a revista Bizz, em 2006: "Ouvi de amigos que, durante o show, haviam meninos e meninas se masturbando." A praia que a sereia baiana frequentava em Ipanema ficou conhecida como "Dunas da Gal" e passou de um lugar poluído para ponto cult que reunia Jorge Mautner, Novos Baianos e outras figurinhas do undegrudi brazuca.

-Saiba mais: a Bizz dissecou as gravações de "Fa-Tal: Gal a Todo Vapor"


Da maior importância


O disco seguinte, "Índia"(1973), seria o último grito da fase "Janes Joplin baiana", depois a cantora ganharia as paradas com álbuns mais populares e menos criativos. Em 1978, geraria polêmica ao assumir em entrevista que dormia com mulheres. Hoje pode parecer banal, mas aqueles eram tempos caretas, mora?

Veja também:
-Fotos de Leila Diniz
-Fotos de Luz del Fuego

-Fotos da Fernanda Young

21.3.10

Anvil! - Documentário sobre a banda canadense Anvil

-Chaos A.D. : disco que transformou o Sepultura em gente grande


Descobri o trailer de "Anvil! Story of Anvil" através de um twitte do amigo e precurssor do "Stand Up Jail" Marcelo Pirajuí. Cheio de elogios da crítica, o filme traz depoimentos de caras como Slash e Lemmy babando ovo para uma banda canadense de heavy metal, fundada em 1977 como LIPS, e que no começo dos anos 80 se tornaria o Anvil. Discos como "Hard 'N' Heavy", "Metal On Metal" e "Forged in Fire" influenciaram a nata do speed/trash metal(Metallica, Pantera, Slayer...) e os levaram ao mais puro... ANONIMATO!

Eu particularmente nunca tinha ouvido falar da banda - e parece que a maioria das pessoas também não - essa é uma das graças do documentário: mostrar como os tiozões cabeludos continuam, 30 anos depois, correndo atrás do sonho de fazer sucesso no mundo do rock 'n' roll.

Quando eu assistir conto pra vocês o que achei.

Veja também
-História do líder do Motörhead vira filme
-Os melhores documentários sobre rock 'n' roll
-Os 10 melhores baixistas do heavy metal

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