30.10.09

“Ramones” - Ramones, 1976




-Já leu poesia punk?


Para a revista Rolling Stone ele é o 33º melhor disco da história. Para qualquer moleque de calça rasgada e all star ele é seu motivo de existir. Uma dos pedaços de vinil mais influentes da música pop. Sua duração é de 29:04s. Seu custo total de produção foram míseros $ 6400, numa época onde, segundo o próprio Joey Ramone no livro “Mate-me, por favor”, gastava-se meio milhão para produzir um álbum. E esse não era qualquer álbum; ele criou o punk, revolucionou o rock do final dos anos 70 e deu origem a centenas de bandas. Dos Sex Pistols ao Metallica, do Red Hot Chili Peppers aos Ratos de Porão, a influência do primeiro disco dos quatro magrelos de Nova York foi devastadora.

É difícil explicar hoje a importância desse amontoado de 3 acordes tocado com velocidade e paixão, sem riffs difíceis, solos de guitarra ou viradas de bateria. Aqui no Brasil, seria como se os Racionais Mc’s tivessem um som tão agressivo quanto o Sepultura e criassem, em seu primeiro disco, a Bossa Nova ou a Tropicália. Estávamos nos Estados Unidos, em 1974. O que existia de mais agressivo no rock era o som de MC5, Stooges e New York Dolls. As três bandas tinham um sucesso mediano, mais undeground, e seu som era uma transição do hard rock para o que se chamou punk. O que mais lembrava o que os Ramones viriam a fazer era o primeiro (e cru) disco dos Stooges. Mas nesse, você encontra uma música de mais de dez minutos (“We Will Fall”) e aqui a música mais comprida tem 2:39s(“I don’t Wanna Go Down to The Basement”). E as rádios? Eram dominadas pelo progressivo de Yes e Genesis, pelo hard rock virtuoso de Led Zeppelin e pela discoteca do saltitante John Travolta. O sonho hippie tinha acabado, os Beatles também. A América Latina, o leste Europeu e grande parte da Ásia viviam sob ditaduras. O mundo em constante ameaça atômica era uma ressaca claustrofóbica.

Blietzkrieg bop






A primeira coisa que chama a atenção no disco é a capa. Quatro cabeludos, com jaquetas de couro pretas – como as de Marlon Brando e James Dean – calças rasgadas, tênis surrados e caras desafiadoras estão encostados numa parede pichada. Eles parecem te provocar, loucos pra te dar uma porrada. A única coisa escrita lá é o nome da banda “Ramones” – uma referência ao nome que Paul Mccartney usava para se registrar em hotéis. O disco começa. A porrada vem em forma de grito de guerra. Hey ho let’s go. Um ataque relâmpago fala de blitzgrieg, estratégia militar que fez os nazistas dominarem metade da Europa no começo da Segunda Guerra Mundial. Ah, vale lembrar, o alemãozinho Dee Dee Ramone tem fascinação pelo nazismo. O desengonçado Joey Ramone – já internado em clínicas psiquiátricas - berra “espanque o moleque com um taco de beisebol”. Da onde vem tanta raiva? Dee Dee foge de uma família problemática, Johnny ralava como pedreiro. O lirismo se esconde nos backing vocals que fazem referência a grupos vocais dos anos 60. “I Wanna Be Your Boyfriend” quebra o clima, uma balada romântica já pavimenta o caminho que os Buzzcocks, e mais pra frente os emos, vão seguir. “Os punks também amam”. “Now I Wanna Sniff Some Glue” repete milhares de vezes a mesma frase. Os moleques entediados lá de “1969” de Iggy Pop agora gastam o tempo cheirando cola, arrumando brigas e fazendo barulhos com suas guitarras toscas, ou serras elétricas, em “Chain Saw”. A contagem para todo mundo entrar junto – que se tornou marca registrada do grupo – aparece pela primeira vez em “Listen To My Heart”. “1,2,3,4” grita Dee Dee, baixista e principal compositor. Ele vai voltar a urrar em uma das partes de “53rd and 3rd” uma das mais sérias e tristes do álbum. É sobre o tempo em que o músico ficava nas esquinas de Nova York fazendo michês. O disco ainda traz como destaque o cover “Let’s Dance”(e gravar clássicos do rock ‘n’ roll em versões cruas seria uma marca da banda) e “Today your Love, Tomorrow the World”.

Havana Affair/Listen To my Heart






-Entrevista com os Garotos Podres


Pronto, menos de meia-hora e a surra acabou. Aqueles punks saídos do filme “O Selvagem”(com Marlon Brando), que soavam como uma canção de Iggy Pop e queriam cantar como se fossem os Beach Boys devem estar cheirando cola em outro lugar. Seu álbum não fez nenhum sucesso nos EUA. Só foi bem recebido quando o quarteto excursionou pela Europa e influenciou meio mundo – Clash e Sex Pistos incluídos, dando origem ao movimento punk e todo hype em cima da coisa. Dessa árvore cairiam os frutos podres do hardcore, trash, crossover, grunge, emo e outros estilos musicais.

Era isso. Letras diretas sobre o cotidiano do mundo white trash - os brancos pobres e desajustados dos EUA. Som distorcido, rápido e sem firulas. Refrões fortes. Backing vocals melodiosos. E o rock nunca mais seria o mesmo.

Leia para saber mais:
“Mate-me, por favor”, "Legs" McNeil e Gilliam McCain
“Coração envenenado” – Dee Dee Ramne e Veronica Kofman

28.10.09

The Boys - Sick On You/Living in the City

Sick On You


Eu descobri os "The Boys" quando assisti, anos atrás, o Holly Tree fazendo um cover da banda no extinto(e muito bom) programa Musikaos. A música era "Living in the City", umas das melhores da safra 77 britânica, na minha humilde opinião.

Criado em 1976, o The Boys contava em sua formação clássica com Matt Dangerfield, Duncan 'Kid' Reid, Casino Steel, Honest John Plain e Jack Black. Um de seus diferenciais era a presença de teclado em seu punk enérgico. Os caras encerram as atividade em 1981 e voltaram em 1999 com Von Ritchie nas baquetas. Lançaram os discos "The Boys"(1977),"Alternative Chartbusters"(1978),"To Hell with the Boys" (1979) e "Boys Only" (1980) e também um álbum de natal com o nome de The Yobs

-Conheça o disco "Pela Paz em Todo Mundo" do Cólera
-Entrevista exclusiva com os Garotos Podres

Living in the City


-Connheça outras bandas do punk 77 inglês

26.10.09

Esperando Godot - Samuel Beckett ****



-Leia outras resenhas

Obra-prima do escritor irlandês Samuel Beckett(1906-1989), “Esperando Godot”(En attendant Godot / Waiting for Godot) é uma das principais peças do teatro do absurdo e traz ainda forte carga existencialista e influência do humor clássico americano de Charles Chaplin e Buster Keaton. Seus personagens são apenas 5, sendo 4 clowns com chapéus de coco e um menino. Tudo na peça é dobrado e gira em torno do duplo. Vladimir e Estragon são os pobres vagabundos que esperam eternamente Godot, sem nem lembrar direito o porquê. Vladimir é um poeta frustrado, Estragon é movido pelos sentimentos. Foram comparados a duplas como “O Gordo e o Magro” ou aos já citados comediantes, Buster Keaton e Charles Chaplin. Lembram também a dupla massacrada pela recessão americana de “Ratos e Homens” de Steinbeck.

Ainda seguindo a dinâmica do duplo, “Esperando Godot” é dividida em dois atos. A dupla de vagabundos interage com Pozzo e Lucky, senhor e servo, e passa por dois dias e duas noites. Algumas frases e situações se repetem constantemente, sem que os personagens percebam, mas criando um sentimento de rotina e tédio, ingrediente fundamental para o acontecimento principal da peça: “o ato de espera”.

-Vamos embora
-A gente não pode
-Por quê?
-Estamos esperando Godot
-É mesmo


-Mais literatura
-Simone de Beauvoir, nossa musa com cérebro

25.10.09

Uma canção para São Paulo

Era um refrão de samba, que virou esse texto longo, composto caminhando pelo meu bairro

-"Tinha um Drummond no meio do caminho"

São Paulo eu queria te abraçar, ai, ai.
Até que enfim a cidade vai enxergar, vai, vai.

São Paulo eu queria te abraçar, ai.
Até que enfim a cidade vai enxergar, vai.

Vai enxergar o mendigo-artista que pinta retratos no Butantã
A menina linda que espera cansada no ponto de ônibus
Garotos palhaços que transformam semáforos em circo

São Paulo das ruas imundas e cheias, Vital Brasil cacofônica.

São Paulo, se tu fosse uma mulher, te levava pra casa e arrumava seus dentes.
São Paulo, se tu fosse uma mulher, te dava banho e escovava teus dentes.


***



Um dia eu vi um rato morto debaixo da ponte Eusébio Matoso.
Decompondo-se dia após dia.

Pele.
Carne
Ossos
Poeira
Nada

Ao lado dos mendigos ratos, que habitavam bueiros. Nada

***

Como Caetano te achei feia, cinza e suja.
Mas te entendi depois, imponência de grandes avenidas paulistas e farias limas.
O lado bonito e oculto da cidade fantasma.
Não que não haja beleza nos jardins do Jardim Ângela e nas formas circulares do Capão.
Redondo.

Algumas coisas acontecem na Avenida São João
Madrugadas boêmias, Ipiranga, Copan. Meu coração.
"De noite rondo a cidade"
Os bares da Vila Madalena, Augusta e Barra Funda.
Espero meu ônibus e vejo o Jaçanã.
Passo o bilhete único e lembro do Adoniran.
***

São Paulo é a mais democrática e a mais elitista megalópole brasileira.
Não pertence aos paulistanos, mas aos nordestinos, caipiras e gaúchos
Africanos que estudam na USP, bolivianos que enchem o Brás, Bexiga e Barra Funda.
Italianos da Mooca em jogos do Juventus e japoneses cantando boleros em karaokês.

***
Metrô ultrarrápido
Jatos utrasônicos
Paulistanos ultrasós

***



São Paulo eu queria te abraçar, ai, ai.
Até que enfim a cidade vai enxergar

Vai

-Outras tentativas poéticas

22.10.09

"Kiss me Deadly" - Generation X

Certo. A Inglaterra no final dos anos 70 tinha o Clash, os Pistols e os Buzzcocks. E essa é a santíssima trindade do punk rock bretão. Mas junto com os mestres surgiram dezenas de bandas, algumas com seus 5 minutos de fama, outras não.

O Generation X era a banda do Billy "dance with myself" Idol. E antes de ser uma Madonna de moicano, o cara era um dos poucos vocalistas de punk a cantar afinado.(Seja isso vantagem ou não.)



-Assista aos Dead Kennedys tocando "Holyday in Cambodia"
-Tudo que já postamos sobre punk rock

Formado em 21 de novembro de 1976 por Billy mais Tony James e John Towe, o grupo chegou a contar com Terry Chimes(Clash) na bateria. Seu som era mais pop que o da maioria das bandas da época. Lançaram 3 discos(mais um "póstumo") e deram lugar para a carreira solo da inspiração mór do Supla.

Em breve mais bandas do punk inglês 77

21.10.09

Uma visão memorável - William Blake

Originalmente publicado no Clube de Ideias
Tem saco pra ler poesias?

Os profetas Isaías e Ezequiel jantaram comigo, e eu lhes perguntei como ousavam tão redondamente afirmar que Deus lhes falara; e se não pensaram na época que seriam mal-compreendidos, e assim, causa de imposição.

Isaías respondeu: "Eu não vi Deus algum, nem ouvi, numa percepção orgânica finita; mas meus sentidos descobriram o infinito em todas coisas, e como estivesse assim convencido, e ainda o estou, de que a voz da indignação honesta é a voz de Deus, não me preocupei com as consequências, mas escrevi."

Então perguntei: "A firme convição de que uma coisa é assim, assim a torna?"

Ele respondeu: "Todos os poetas assim o acreditam, e em eras de imaginação esta firme convicção removeu montanhas; mas muitos não são capazes de uma firme convicção de coisa alguma."

Então Ezequiel disse: "A filosofia do Oriente ensinou os primeiros princípios de percepção humana: algumas nações mantiveram um princípio para a origem, algumas outro: nós de Israel ensinamos que o Gênio Poético (como vocês agora o chamam) foi o primeiro princípio e os outros meramente derivados, e essa foi a causa de nosso desprezo pelos Sacerdotes e Filosófos de outros países e de profetizarmos que se provaria afinal serem todos os Deuses originados no nosso e serem tributários do Gênio Poético; foi isso que nosso grande poeta, Rei David, desejou tão ardentemente e invoca tão pateticamente, dizendo que com isso ele conquista inimigos e governa reinados; e nós amamos tanto nosso Deus, que amaldiçoamos em seu nome todas as divindades das nações vizinhas, e afirmamos terem elas se rebelado: destas opiniões o vulgo veio a pensar que todas as nações seriam afinal subjugadas pelos judeus."

"Isto", disse ele, "como toda firme convição, é fatal que aconteça; pois todas as nações acreditam no código dos judeus e adoram o seu Deus, e pode haver maior sujeição?"

Ouvi isso com algum espanto, e devo confessar, minha própria convicção. Após o jantar, pedi a Isaías que favorecesse o mundo com suas obras perdidas; ele disse que nenhuma de valor se perdera. Ezequiel disse o mesmo das suas.

Também a Isaías o que o fazia caminhar nu e descalço durante três anos? ele respondeu:

"O mesmo que nosso amigo Diógenes, o grego."

Perguntei então a Ezequiel por que comia lama e se deitava por tanto tempo em seus lados direito e esquerdo? ele respondeu : "O desejo de despertar outros homens para uma percepção do infinito: isto, as tribos norte-americanas praticam, e é honesto aquele que resiste a seu gênio ou consciência, visando apenas conforto ou gratificação presentes?"

A antiga tradição de que o mundo será consumido em fogo ao final de seis mil anos é verdadeira, conforme ouvi no Inferno.

Pois o querubim com sua espada flamejante tem aqui ordens de deixar a guarda da árvore da vida; e quando ele o fizer, toda a criação será consumida e parecerá infinita e sagrada, enquanto agora parece finita e corrupta.

Isto ocorrerá com um aperfeiçoamento do prazer sensual.

Mas primeiro a noção de que o homem tem corpo distinto de sua alma deve ser banida.

Isto deverei fazê-lo imprimindo no método infernal, com corrosivos, que no inferno são salutares e medicinais, solvendo superfícies aparentes, e expondo o infinito que estava oculto.

Se as portas da percepção fossem limpas, tudo apareceria ao homem como é, infinito.

Pois o homem fechou-se a si mesmo, até ver todas as coisas pelas estreitas fendas de sua caverna.

Tradução de Dênis Urgal, texto tirado do livro "O Matrimônio entre o Céu e o Inferno"

William Blake
William Blake (Londres, 28 de novembro de 1757 — Londres, 12 de agosto de 1827) foi poeta, pintor, sendo sua pintura definida como pintura fantástica, e tipógrafo.

Em 1790, publicou sua prosa mais conhecida, O matrimônio do céu e do inferno em que formula uma posição religiosa e política revolucionária na época: "a negação da realidade da matéria, da punição eterna e da autoridade".

A passagem "Se as portas da percepção fossem limpas, tudo apareceria ao homem como é, infinito." influenciou tanto Aldous Huxley em seu livro "As Portas da Percepção", quando Jim Morrison na escolha do nome de sua banda, The Doors.

-Você já leu as poesias de Lawrence Ferlinghetti?

The angels of the good and the bad


-Leia entrevista com Arnaldo Baptista

-Mais literatura

19.10.09

Dita Von Teese vem aí!

-Fotos e vídeos de Bettie Page

Principal nome da onda "burlesca" que revive o clima das pin ups, Dita Von Teese faz show no Brasil dia 28/10, só para convidados. O show "Be Cointreauversial" está sendo patrocinado pelo Contreau. Abaixo, um vídeo com um pouco do que a gente vai perder.



-Galeria de pin ups
-Musas rock 'n' roll

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