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6.12.09

Sexus, Henry Miller

Sexus, Henry Miller - Editora CEA(Edição Econômica, 1975. Tradução de Roberto Muggiati.


Infelizmente não achei uma imagem da capa da edição que li..

por Fred Di Giacomo

A montagem tosca cheia de mulheres nuas sobre o papel vagabundo engana. O título chamativo em vermelho - estampando a palavra “Sexus” - também. Henry Miller não é um mero escritor erótico, apesar de fazer o sangue e a libido alheia ferverem com suas descrições sexuais. Ele é um escritor da vida. “A prosa de Miller é uma torrente, uma catarata, um vulcão, um terremoto(...)”, escreveu Norman Mailer. George Orwell o definiu como “(...)o único excelente escritor de prosa imaginativa que apareceu na língua inglesa nos últimos anos”. Com essas credenciais, podemos nos desligar da imagem de Miller “o libertino” e começar a viajar na instigante jornada de Miller, o escritor.

“Devia ser uma noite de quinta-feira quando a conheci – no salão de danças”. Se era ou não uma quinta-feira, a Miller pouco importa. O que importa é que foi no salão de danças que ele conheceu Mona(na vida real, June), a paixão de sua vida e tema principal de "Sexus". Miller é casado e trabalha na companhia de telégrafos (ou Corporação Chupadora Cosmodemoníaca, como ele prefere). Odeia seu emprego, tem uma filha e uma mulher (com as quais pouco se envolve emocionalmente) , mora em Nova York e sonha em ser escritor. “Um fracasso em todo sentido da palavra”, como se define. Já pensou em se matar, conta-nos seu amigo Kronski, mas agora quer viver. Intensamente. Está empolgado com a existência. E a sensual Mona será a cereja deste saboroso bolo, esta nova percepção de vida.

“Sexus”(1949) faz parte da trilogia “Crucificação Encarnada” – ao lado de “Plexus”(1953) e “Nexus”(1960) – que consagrou Miller como um dos grandes do século XX, depois de seu começo conturbado com o censurado“Trópico de Câncer”. O livro narra os últimos anos de Miller nos Estados Unidos, antes de largar tudo e ir vagabundear na Europa – onde se revelou como escritor.(Período brilhantemente mostrado no filme “Henry & June”). O autor explica que está se aproximando de seu trigésimo terceiro aniversário – a idade de Cristo crucificado – e uma nova vida se estende para ele. Mas este é o único motivo pelo qual a trilogia deve se chamar "Crucificação"? O leitor atento pode observar: que são os discursos verborrágicos de Henry sobre a vida, o sexo, o trabalho e a sociedade que não sermões, muitas vezes em parábolas? Assim como Cristo, nosso autor/personagem prega um novo mundo, um paraíso - desta vez na Terra - que pode ser atingido através de sua doutrina. Ele converte amigos e mulheres com sua fala inflamada, realiza milagres através de orgasmos e multiplica comida e dinheiro - que consegue pedindo aos camaradas. E qual é sua punição? A crucificação simbolizada pelo casamento, o trabalho, as contas pra pagar e a rotina humana. Muito dessa filosofia não é novidade, algo foi tomado de Nietzsche(assim com de Céline vêm as descrições cruas e de Dostoiéviski os diálogos realistas.) Mas ao contrário de Nietzsche, Miller trepa.
A obra é dividida em 5 livros. O primeiro é mais morno, com o começo do romance entre Miller e a misteriosa Mona e a apresentação de seu círculo de amigos. A coisa vai engrenando no livro 2, que narra o fim do casamento de Henry com sua primeira esposa, Maude, e explode nos 3 seguintes, com a intensidade narrativa cada vez mais quente.

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O Miller de “Sexus” é um escritor sem livros. Todos os amigos gostam de sua companhia, lhe emprestam dinheiro e perguntam por que ele não escreve nada. “Você deveria escrever como fala”, alguém aconselha. Clic! Um estalo dispara uma fagulha no narrador. “O mundo só começaria a tirar de mim algo de valor a partir do momento em que eu deixasse de ser um membro sério da sociedade e me tornasse – eu mesmo”.

Não é a toa que Miller tenha influenciado tantos beats e hippies. Ele quer tacar fogo em toda superficialidade da vida cotidiana e ir direto ao âmago da existência. Odeia o comum. Quer criar um novo mundo. “Se existe algo da qualidade de Deus em Deus é isto. Ele ousou tudo imaginar”. Se por um lado é libertário, por outro é egoísta, deixando filha e mulher de lado para viver sua grande aventura pessoal. Afirma que não se importa com a miséria do mundo. “Para mudar o mundo devemos primeiro mudar nós mesmos”, dizia um dos lemas da contracultura. Como um São Francisco ninfomaníaco, o escritor quer se livrar do peso morto para alçar vôo: “Nas poucas leituras que eu fizera, tinha observado que os homens que eram mais na vida, que estavam amoldando a vida, que eram a própria vida, comiam pouco, dormiam pouco, possuíam pouco ou quase nada”.

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O ritmo do texto ganha a virulência dos discursos inebriados de Miller. Ele cospe Blake, Céline e Buda numa velocidade assustadora, mesclados às sensuais descrições de suas aventuras eróticas com amantes, Mona e a ex-esposa. Novamente há aqui um movimento contraditório. É o narrador um ativista da libertação sexual ou um machista só preocupado com seu próprio falo? Ele parece realmente apaixonado por Mona, apesar de conviver bem com as traições de ambos os lados.

Cada capítulo de “Sexus” traz novos personagens e citações. Se há algum enredo que conduz a história, este pode ser resumido em “livro que narra o primeiro divórcio de Miller, o começo da relação com Mona e o processo de transformação que levaria o autor a largar tudo e virar escritor”. Com a aceleração do ritmo passamos por sonhos, devaneios e descrições surrealistas. Miller, o gangster espiritual, adianta “O Almoço Nu” de Borroughs em alguns anos pra terminar em sua própria “Metamorfose” surrealista.

“Somos todos culpados do crime, o grande crime de não vivermos uma vida completa”. É essa a maior busca do escritor/personagem: desfrutar de uma vida completa.

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-Pedro Juan Gutiérrez, o Henry Miller cubano

Mona(June) e Anais Nin, no filme "Henry & June"

14.6.08

Trópico de Câncer, Henry Miller

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-Resenhas de outros grandes livros


Como cenário a Paris entre guerras, como definição as palavras do próprio autor: "Isto não é um livro. É libelo, é calúnia, difamação...”, como prefácio uma declaração de Ralph Waldo Emerson simplificando: “Estes romances cederão lugar, pouco a pouco, a diários ou autobiografias...” E assim a vida se transforma em arte nas letras do pai da geração beat, o maldito, “Henry Miller”. Nascido no Brooklyn em 1891, Henry Valentine Miller representa um ponto de virada na literatura mundial, uma influência para autores como Allen Ginsberg, a geração hippie, beatnick e sua obsessão por liberdade sexual, viagens e boemia. Henry influenciou esses poetas “marginais” até na forma autobiográfica de escrever já que em seus livros ele é o personagem principal, mas suas histórias não são totalmente reais, são uma mistura de ficção e realidade num tipo de Bukowski mais elaborado e surrealista.

Suspiros de surrealismo, filosofia nietzschiana, influências de escritores “eróticos” como Céline e DH Lawrence (que ele rejeitava até ler “D.H. Lawrence: an unprofissional study", livro de sua amante, Anaïs Nin), tudo isso borbulha nas páginas de Trópico de Câncer, mas há algo a mais ali. Não é pornográfico como seus censores acusaram ao conseguirem manter sua obra inédita por 30 anos nos países de língua inglesa até que o poeta beat, Lawrence Ferlinghetti, a publicasse: é humano, demasiadamente humano. É um homem em busca de si mesmo, uma descoberta a cada página, uma canção de libertação...

Estamos nos subúrbios e cabarés da Paris dos anos 30, a guerra é uma sombra que ronda incessantemente. Intelectuais, artistas, pintores, todos se reúnem para beber, transar e discutir, Henry está entre eles, mas não tem um tostão no bolso, está duro e vive de bicos (a prisão dos escritores: o jornalismo) e ajuda dos amigos. O anti-herói resmunga : “Sou um artista assalariado, obrigado a interpretar uma farsa intelectual sobre seus estúpidos narizes?”. Os capítulos vão revezando-se um após o outro sem ordem cronológica exata, carregados de fluxo de consciência e alternando reflexões surrealistas com relatos crus do cotidiano de Miller. O Clima é retratado fielmente no clássico erótico “Henry e June” de Philip Kaufman (diretor também de “Contos Secretos do Marquês de Sade” ), focado no triângulo amoroso entre Henry, sua esposa June e a escritora Anais Nïn, autora dos diários inspiradores da película (“Henry, June & Eu”). A busca é por grana e sexo, grana e sexo até não representarem mais nada, grana e sexo como formas de sobrevivência, sobrevivência como única alternativa, única alternativa: a vida. E essa Miller vive com tesão!

Nos momentos “filosóficos” Miller remete a Nietzsche, filósofo que leu, saudou e parafraseou em alguns trechos de sua obra. Toma como profissão de fé a filosofia, que busca desmascarar o mundo dos ídolos, o Deus que não sabe dançar, que busca trazer ao homem os prazeres terrenos. Nietzsche previu mais de um século atrás o declínio da civilização ocidental, diz. O Henry Miller de Trópico de Câncer/Henry e June (no qual há uma cena em que ele discute o filósofo alemão) tem a mesma missão: libertar o ser humano de suas amarras, despertá-lo para a vida nessa existência que é única, como ele mesmo diz: “São homens e mulheres, pergunto a mim mesmo, ou são sombras, sombras de fantoches pendurados por invisíveis cordéis? Eles se movem aparentemente em liberdade, mas não tem para onde ir. Só em um reino são livres e lá talvez possam vaguear à vontade, mas ainda não aprenderam a levantar vôo”. E essa libertação inclui também a religião, a qual Miller despreza. Em um dos trechos ele e um amigo, ambos bêbados, vão assistir a uma missa, que ele descreve como se fosse um alienígena que nunca tivesse visto uma cerimônia religiosa, descreve-a de uma forma claustrofóbica, que o sufoca, pouco a pouco a até que ele fuja correndo da igreja.

Miller em sua busca acaba se desprendendo da necessidade de ser humano, declarando-se um “inumano”, descendente de uma árvore genealógica de artistas e pensadores que como ele buscavam viver desesperadamente no limite, buscando a paixão total, o fogo da criação, já que a partir disso, tudo é humano e dispensável. (“Enquanto estiver faltando aquela centelha de paixão, não há significação humana no ato”.) Como um modernista brasileiro, como “Oswald de Andrade” na peça “A morta” , ele clama para que se incendeiem as bibliotecas, museus e biografias. Que os mortos devorem os mortos e os vivos dancem!


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